terça-feira, 16 de novembro de 2010

Emerson Barros de Aguiar - O Amor




um conto - uma crônica

Este conto faz parte do livro História para sua Criança Interior de Eliane de Araújo, publicado pela Editora Roca.

Numa sala de aula, havia várias crianças. Quando uma delas perguntou à professora: - Q que é o amor? A professora sentiu que a criança merecia uma resposta à altura da pergunta inteligente que fizera. Como já estava na hora do recreio, pediu para que cada aluno desse uma volta pelo pátio da escola e trouxesse o que mais despertasse nele o sentimento de amor.

As crianças saíram apressadas e, ao voltarem, a professora disse: - Quero que cada um mostre o que trouxe consigo.

A primeira criança disse: - Eu trouxe esta flor
, não é linda?

A segunda criança falou: - Eu trouxe esta
borboleta. Veja o colorido de suas asas, vou colocá-la em minha coleção.

A terceira criança completou: - Eu trouxe este filhote de passarinho. Ele havia caído do ninho junto com outro irmão. Não é uma gracinha?

E assim as crianças foram se colocando.

Terminada a exposição, a professora notou que havia uma criança que tinha ficado quieta o tempo todo. Ela estava vermelha de vergonha, pois nada havia trazido.

A professora se dirigiu a ela e perguntou:

-Meu bem, por que você nada trouxe?

E a criança timidamente respondeu:

Desculpe, professora.

Vi a flor e senti o seu perfume. Pensei em arrancá-la, mas preferi deixá-la para que seu perfume exalasse por mais tempo.

Vi também a borboleta, leve, colorida! Ela parecia tã feliz que não tive coragem de aprisioná-la.

Vi também o passarinho caído entre as folhas, mas, ao subir na árvore, notei o olhar triste de sua mãe e preferi devolvê-lo ao ninho.
Portanto professora, trago comigo o perfume da flor, a sensação de liberdade da borboleta e a gratidão que senti nos olhos da mãe do passarinho. Como posso mostrar o que trouxe?

A professora agradeceu a criança e lhe deu nota máxima, pois ela fora a única que percebera que só podemos trazer o amor no coração.

Segundo Osho, quando um adulto pede uma definição de amor, isso significa que ele nunca teve consciência deste sentimento.

Na tradição Sufi, quando não temos consciência do amor, simplesmente não somos.

O amor permeia tudo a nossa volta, mas nem sempre nos deixamos impregnar de amor. Nisto consiste a maior comunhão da vida, em deixar-se invadir de amor.

Rumi disse isso melhor do que eu poderia dizer em uma Suma Teológica, por isso me calo para que ele fale:

"Eu soube, enfim, que o amor está ligado a mim!

E eu agarro esta cabeleira de mil tranças.

Embora ontem à noite eu estivesse bêbado da taça.

Hoje, eu sou tal, que a taça se embebeda de mim!".

O que posso dizer mais? Amar é ser assim...

Emerson Barros de Aguiar

Publicada no jornal O Norte.

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