segunda-feira, 18 de abril de 2011

Luiz Augusto Crispim - Prefácio Do Livro A Dama Da Tarde -Saudades da Última Página - Continuação

É fácil constatar como a literaridade não se inclui nestes parâmetros de julgamento da crônica. São outros os critérios que sustentam a insistente hierarquização dos gêneros. Critérios que deixam sem resposta convincente questões fundamentais:

Por que um romance seria necessariamente superior a um livro de crônicas?

Por que, em geral, não se estabelece esta mesma relação entre um romance e um livro de poemas?

Qual seria o superior, na comparação entre um livro e poemas e um livro de crônicas?

Nem Rubem Braga pôde fugir à realidade do confronto entre as duas espécies narrativas. Na sua visão poética,

"Há homens que são escritores e fazem livros que são verdadeiras casas, ficam. Mas, o cronista de jornal é como o cigano que toda a noite arma a sua tenda e pela manhã a desmancha e vai".

"A crônica é uma tenda de cigano enquanto consciência da nossa transitoriedade; no entanto é casa - e bem sólida até - quando reunida em livro, onde se percebe com maior nitidez a busca de coerência no traçado da vida". É irretocável o comentário do especialista. No entanto a pluralidade da metáfora permite a ousadia de outra leitura.

Sem opor à transitoriedade qualquer resistância. Mas compreendendo a tenda como o abrigo possível, o mais próximo desta desadorada avalanche humana que se caracteriza como sociedade de massa. Na pressa de não chegar. Na estridência de não ouvir. Na violência de não viver. No automatismo de não ser.

A crônica é o domicílio em trânsito desses "passageiros da agonia urbana". Trincheira de resistência da palavra poética que ordena o caos e reinventa o homem.

Para este reencontro com A Dama daTarde, na sutileza de sua imprevisibilidde, recorrí ao caminho mais longo. Do gênero para a obra realizada. Do elogio da crônica para o concerto destas rapsódias em azul. À sombra dos ipês em flor, onde o acento lírico de tom nitidamente proustiano atualiza o encanto daquela Última Página que foi para mim o princípio e o verbo. E agora se confunde em justaposição com a "saudade da menina descalça que descia a ladeira de Tambiá no destino da Bica, rumo incerto de eternas férias que não voltam jamais".

Ângela Bezerra de Castro.

Professora e crítica literária.
Coordenadora administrativa da ESMA
(Escola Superior da Magistratura do Tribunal de Justiça da Paraíba).


A Dama da Tarde
Escritor Luiz Augusto Crispim
Páginas 8, 9 e 10.

continua...

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