sexta-feira, 20 de maio de 2011

Carlos Pereira - Afinal, Quem Sou Eu?


um conto - uma crônica

Houve um tempo (e bote tempo nisso) que eu era metido e enxerido. Não cheguei a ser nenhum menino-prodígio, mas fui abusado - no melhor sentido da palavra. Terminei primeiro o curso primário, porque me passaram do segundo ano para o quarto sem fazer o terceiro, fiz o Exame de Admissão com 10 anos, terminei o Ginásio com 15; recebi um prêmio para fazer o Colegial no Pedro II, no Rio (não fui porque minha mãe não deixou), fui aprovado no primeiro vestibular a que me submeti, para Engenharia e concluí o curso nos cinco anos regulamentares.

Até aí, nada demais porque naquele tempo estudar era obrigação e devoção e ai de quem não estudasse - ia ser carroceiro, dizia minha santa madre...

Comecei a trabalhar aos 14 anos e fui, talvez, o funcionário mais jovem da história do velho DER da Maximiano de Figueiredo; conheci o Rio e Belo Horizonte com menos de l8 anos em viagem de excursão de final de curso colegial, paga pelo governador Dias Fortes, de Minas Gerais; com pouco mais de 30 anos já tinha ido uma vez aos Estados Unidos e uma vez à Europa - o que também não é nada demais, nos dias de hoje. Naquele tempo somente gente muito rica se dava a esse desfrute.

Quando eu digo que era um menino abusado não é, porque tenha marcado a minha vida de adolescente com esses registros, mas, porque já namorava aos 12 anos embora continuasse virgem até quase os 18 e já ensaiava um discurso de saudação ao dia da árvore no grupo Isabel Maria das Neves aos 11 anos, quando vesti um paletó (emprestado) pela primeira vez.

Eu era um menino abusado, porque queria ler antes dos outros e certa vez fui repreendido por um cunhado dado às leituras porque entrei numa discussão sobre Menino de Engenho de José Lins do Rego e ele me disse "que aquela não era conversa pra menino".

Houve um tempo (já não tanto tempo assim) que onde eu encostava era um dos mais jovens. Nas salas de aula do Liceu, nos chopes da Casa dos Frios, no Montilla da Churrascaria Bambu, nos picados das quartas-feiras do Luzeirinho e até na ousadia de interpelar professores e discursadores em comícios e reuniões. Até orador geral das turmas concluintes da Universidade cheguei a ser, apesar de cursar carreira técnica.

Mas,esse tempo foi passando e eu fui envelhecendo. Mais na idade do que nos ideais do bem viver e do bem querer. E, de repente ( e foram tantos anos que não foi tão de repente assim!) eu me senti depois dos cinquenta, dos sessenta a caminho dos setenta onde agora estaciono.

Tentei contar a minha vida em sete capítulos e se não consegui (ainda vou fazê-lo), foi porque o menino-adolescente continua dentro de mim e daqui não quer sair, a não ser...

Quando? Não sei e talvez nunca venha a sabê-lo.

Resta-me aturar esse menino teimoso que embora seja Carlos, não lhe mandaram ser gauche na vida - como fizeram com o grande Drummond.

Talvez seja a hora de lembrar Cecília Meireles e, bem satisfeito com que o fui e resignado com o que ainda sou, repetir:

- Em que espelho ficou perdida a minha face?
Carlos Pereira
Jornalista, escritor, engenheiro e
professor universitário

Publicada no jornal A União.
Edição 20/12/2009

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