segunda-feira, 23 de maio de 2011

Onaldo Queiroga - Lixo Sonoro



O som, fenômeno acústico, consiste na propagação de ondas sonoras produzidas por um corpo que vibra com uma frequência capaz de ser percebida pelo sistema auditivo humano. Algumas vezes, o som acalma o espírito; outras vezes, serve para alertar, orientar anunciar determinadas situações. Em outros casos, diante de sua propagação desconexa e violenta, provoca inquietação, intranquilidade, distúrbios psíquicos e muitas outras coisas que alteram a normalidade do ser humano.

Mas, quando se fala em som, logo vem ao pensamento a sua correlação com a música. A magia se expande das cordas de um melódico violino ou de um plangente violão em serenata, tendo a lua e as estrelas como cúmplices, confidentes de amores explícitos, secretos, impossíveis, corrspondidos ou não.

Outro exemplo é o som de uma flauta doce, que flutua no espaço dos tímpanos, funcionando como um verdadeiro remédio, uma esplendorosa substância que proporciona uma sensação de relaxamento, tranquilidade e serenidade à alma. Vem à mente a acústica de uma sanfona no toque perfeito de um belo xote a massagear o peito de um romântico, afagando-o com um bolero, uma valsa ou um tango.

O som nos remete, também, à fantástica sintonia de pequenos pássaros que habitam o que resta das matas, lugares puros criados por Deus. É, por isso, que a orquestra da santa natura é inigualável em termos de perfeição no mundo da acústica. Seus artistas são pardais, galos-de-campina, colados, sabiás, acauãs, rouxinóis, canários e outros. Todos, sob a regência do mestre concriz, encantam e tranquilizam nosso existir.

E se o som é tudo isso, então, por que o homem insiste em desvirtuá-lo, transformando-o num neurotizante subproduto, símbolo das poluições reinantes no mundo moderno?

Um dia desses, um amigo disse-me que o seu sono foi, por volta das vinte e três horas, abruptamente interrompido por uma pancada tão violenta, que o deixou por algum tempo atordoado. Não sabia ele se o barulho era decorrente da queda de um avião, de um disco voador pairando nos arredores de sua casa ou se tratava de um ato terrorista sonoro decorrente da ação de DJ que havia ligado toda a sua parafernália logo acima de seu quarto.

Segundo ele, era um tum, tum, tum, seguido de sons que mais pareciam raios rasgando os céus, acompanhados, ainda, por barulhos semelhantes aos de trovões, daqueles de balançar paredes. A madrugada se foi e chegou a alvorada. Atônito, viu que a lua resolveu ir embora e o sol acordou mais cedo. Saindo de casa, percebeu que a explosão atômica vinha de uma festa na vizinhança. E disse-me: "Os jovens que saíam da festa pareciam baratas tontas. Era uma tal de festa rave."

Com um olhar de espanto, finalizou: "Respeito o gosto dos outros. Mas, aquilo não é música. É poluição extrema, lixo sonoro agonizante. Pobres cérebros juvenis!"

Onaldo Queiroga.
Escritor e Juiz de Direito.

Esquinas da Vida
Capítulo II - O Homem e as Esquinas
Passa o tempo e a história nos mostra que apenas mudam os
personagens, também flagelados.
Páginas 57 e 58.

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