segunda-feira, 30 de maio de 2011

Onaldo Queiroga - Pedra E Vidraça



um conto - uma crônica
A vida passa e nos permite observar o comportamento humano. Com o tempo, conseguimos enxergar que falar realmente é algo fácil, mas fazer, concretizar o que se diz é outra história. É difícil tornar o discurso em realidade.

Todos nós achamos que temos o direito de julgar os outros, de colocar a colher na panela do vizinho. Sempre somos os melhores, sabemos de tudo, mas na verdade é, como dizia Socrátes, só sei que de nada sei. É por isso, que quando a situação nos convém, atiramos pedra na vidraça alheia. Criticamos, somos duros, falamos que fulano é incompetente, beltrano não resolve o problema porque prefere passar a mão no dinheiro público, é um ladrão, um corrupto e, por aí vai.

É fácil falar, principalmente, quando não se tem a responsabilidade de conduzir e dar soluções para as questões. Nesses casos nos comportamos como francos atiradores, não importando o prejuízo que se vai causar com a quebra da vidraça alheia; aliás, as despesas e os constrangimentos não serão mesmos suportados por nós, mas sim pelo dono da vidraça.Quando agimos dessa maneira, somos irresponsáveis, mas o que interessa é o dividendo político, pessoal, profissional, social, comercial, industrial, que alcançaremos com o desgaste imposto ao nosso semelhante.

Essa é a vida como ela é.Todavia, não podemos esquecer que o mundo é uma bola, e como tal, hoje estamos de cima, mas amanhã estaremos debaixo. É nessa hora que deixamos de ser pedra para ser vidraça.

Nesse momento, todos aqueles que outrora foram objetos de nossas críticas, pois estavam com as querelas em suas mãos para serem solucionadas e não conseguiram resolvê-las, então, deixam de ser o foco das críticas e passam, agora, a ter o poder de cobrar de nós ações para o deslinde das questões. São os dois lados da moeda. É nesse instante que temos que demonstrar coerência, pois o nosso discurso tem agora que ser efetivado em ações que possibilitam a solução das problemáticas postas em nossa mesa.

Não adianta justificar o nosso insucesso, a nossa incompetência em administrar as situações que nos chegam, através de um discurso focado no retrovisor. Tal conduta é frágil e o tempo fatalmente a sucumbirá. É preciso ter coragem de falar a verdade, assumir as dificuldades, ter a humildade de reconhecer as deficiências, a necessidade da união de todos e olhar para frente, pois só assim e com Deus no coração teremos condições de obter um futuro melhor.

Antes de atirarmos a pedra na vidraça alheia, é preciso ter a consciência de que um dia seremos também vidraça. Quando destruímos os sonhos dos nossos irmãos para alcançarmos o nosso apogeu, construímos na verdade um altar movediço, fácil de ser aniquilado. É como diz Emmanuel: "Não destruirás a coragem daqueles que sonham ou trabalham em teu caminho, considerando que, de criatura para criatura, difere a face do êxito".

Onaldo Queiroga.
Escritor e Juiz de Direito.

Publicada no Jornal Correio da Paraíba.
Coluna: Opinião
Edição de sábado.
07/05/2011.

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