quarta-feira, 1 de junho de 2011

Carlos Pereira - O Pau-de-Sebo




um conto - uma crônica

O equipamento era o mínimo possível e o local a ser instalado, também.Com uma vara de, pelo menos 4 metros, roliça e de preferência sem nós, de diâmetro suficiente para não vergar e uma boa quantidade de sebo de carneiro - derretido na hora em fogo de lenha - estava preparado o instrumemtal para a brincadeira do pau-de-sebo, sucesso garantido no Jaguaribe daquele tempo.

Geralmente, a brincadeira acontecia numa praça ou num terreno baldio, dos muitos que existiam no bairro. A praça era preferida, porque além de ter iluminação (o entretenimento podia se prolongar até a noite), tinha árvores e alguns toscos bancos onde os pais se sentavam com seus filhos para assistirem ao desenrolar do espetáculo, muito comum nos anos cinquenta do século passado.

O mastro, bem ensebado, era posto de pé por marmanjos que tinham o cuidado de fincar-lhe bem fincado, na base construída com a ajuda de um pedreiro(acho de nome Waldemar), sempre solicitado nessas ocasiões. Era ele que, com sua colher mágica, usando porções de metralha, areia e cimento, preparava com carinho a base onde a ponta mais grossa do pau-de-sebo era enterrada em, pelo menos, 80 centímetros.

O prêmio, que era colocado num envelope lacrado no topo do pau, não era divulgado com antecedência - o que gerava mais interesse. Os organizadores do evento deixavam vazar a informação de que o envelope continha dez mil réis - apreciável valor financeiro da época, o que aumentava a nsiedade dos participantes.

A competição virava uma disputa entre adolescentes, pois de acordo com as regras (fielmente cumpridas) somente podiam participar meninos com mais de dez anos e com menos de 18. Era a fase dourada da adolescência quando parecia que todos tinham menos de 20 anos e os que passavam dos 30 já eram considerados velhos para quem - como eu - andava aí pelos 11 anos.

Quando começava a competição, normalmente num dia de sábado ou domingo, centenas de pessoas se postavam nos arredores e se formavam as torcidas, muito desorganizadas, por sinal. Depois de cumprida a primeira bateria, se ninguém conseguira arrancar o envelope do alto do mastro, cada competidor tinha mais três chances, alternadamente, até aparecer um vencedor que era saudado efusivamente - como se dizia à época.

Era proibido usar areia nas mãos e nos pés, luvas nem pensar. Os concorrentes eram do sexo masculino - não lembro de alguma mulher que tenha participado do certame. Afinal, pau-de-sebo era brincadeira pra homem - diziam solenemente os jaguaribenses.

Chegar ao topo da vara não significava ter ganhado a parada, pois algumas vezes os "atletas" conseguiam atingir o cume, mas na hora de arrancar o envelope, escorregavam e - como descendo, todo santo ajuda - iam parar no chão, debaixo de estrepitosa vaia.

Eu competi uma única vez e me dei muito mal, não conseguindo atingir o primeiro metro da escalada. Foi uma performance tão medíocre que me fez desistir de outras investidas e me colocou definitivamente na posição que, aliás, desenvolvi com rara competência no longo da minha vida de desportista - a de um simples, mas autêntico torcedor...

Carlos Pereira
Jornalista, escritor, engenheiro e
professor universitário

Publicada no jornal A União.
Edição 15/11/2009.

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