A Prefeitura acaba de inaugurar um novo Ponto de Cem Réis - ou de Mil Réis como chamou Carlos Romero em gostosa crônica. Como outros cronistas já se ocuparam da matéria, dou-me o direito de, também, meter a minha colher, eu que vivi o velho Ponto de Cem Réis de antigamente que agora tento descrever.
No ponto de Cem Réis daquele tempo, perto da parada em que o bonde Circular Trincheiras mudava de secção, rumava para Tambiá ou Tambaú (quem viveu aquela época há de se lembrar) ficava um pavilhão onde, de um lado, as cadeiras dos engraxates recebiam personagens ilustres da província, sobretudo nas manhãs dos sábados - não era raro ver-se o Dr. Flósculo da Nóbrega, de paletó e gravata a lustrar os sapatos pretos Scatamachia ou o empertigado Prof.Anibal Moura, de óculos de grau, armações de tartaruga, de olho na flanela com que o profissional tratava os seus sapatos Fox marrons.
Na outra parte do pavilhão, funcionava uma lanchonete em que os melhores ponches (naquele tempo não se chamava de suco) de frutas eram servidos, destacando-se a preferência pelos de maracujá, de mangada e de cajá - a acerola ainda não tinha aparecido por aqui.
No lado oposto ao ponto dos engraxates, perto da descida da Guedes Pereira, tinha outro pavilhão, este bem mais frequentado pelos transeuntes que diariamente passavam pela praça. Ali, um cafezinho quente, cheiroso, alvear de preferência, era torrado na hora, à vista do freguês. Também fazia furor o cachorro quente de Madruga, lanche obrigatório dos estudantes, bem acompanhado de um copázio de caldo de cana que nos fazia lamber os beiços.Do lado de fora, olhando para a torre do Relógio, ficavam estacionados os "carros de praça", os táxis de hoje, esperando os poucos passageiros que os demandavam - gente mais endinheirada que podia pagar as corridas naqueles carros também importantes, embora mais velhos.
Na praça o máximo permitido em altura eram os sobrados, com lojas no térreo e pensões para estudantes e viajantes no andar de cima.
Lembro bem dos estabelecimentos comerciais da época: Farmácia Regis, em frente ao edifício do IPASE (este já na Guedes Pereira) que marcou época pela altura e que passou a denominar todos os prédios mais altos que se construíram depois; Padaria Suíça. Pensão Caxias e Sinuca de Salu que foram motivo de muitas crônicas de Juarez Batista, Virginius da Gama e Melo e Aurélio de Albuquerque - dentre outros.
O destaque no conjunto arquitetônico e que fazia diferença no largo, única exceção ao gabarito de dois andares, era o majestoso edifício do Paraíba Palace Hotel, uma das jóias da engenharia paraibana (ainda hoje um belo prédio da capital), de cujo terraço se tinha a melhor vista da cidade que não passava da Torrelândia.
Era um Ponto de Cem Réis bem diferente e, seguramente, bem melhor e mais bonito do que aquilo em que um dia o transformaram - um buraco sujo e mal-cheiroso, abandonado que não levava a lugar nenhum.
Agora, finalmente, a Prefeitura reformou o logradouro.Vou vê-lo de perto esta semana e domingo o meu modo de ver o novo Ponto de Cem Réis cá estará.
Carlos Pereira
Jornalista, escritor, engenheiro e
professor universitário
Publicada no jornal A União.
Edição 16/08/2009.
sábado, 11 de junho de 2011
Carlos Pereira - O Ponto De Cem Réis
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