um conto - uma crônica
Lá fora sopra uma brisa suave, quase fria.Aqui dentro, entre quatro paredes, o termômetro da sala marca 25 graus- excelente temperatura para esta cidade sempre quente. Como é noite de São João, nestas ruas do bairro - todas asfaltadas - nem sinal de fogueira. Isso é coisa pra periferia que ainda teima em manter as coisas do passado como se o povo ainda desse valor a elas.
Mas, eu falava da brisa. Como é saudável, benfazeja e bem-vinda uma brisa que sopra vindo do mar. Aliás, daqui deste décimo andar, quase não consigo mais ver o verde do mar de Manaíra - ele foi engolido pelos edifícios que, aos poucos, foram se acumulando e me tirando a vista tão saborosa de antes.
O que se há de fazer? É o progresso que chega à cidade de 400 anos de história que até pouco tempo não tinha tantos arranha-céus nem congestionamentos e agora se iguala às outras cidades grandes onde já não se vive em paz. Tem mais é que conviver com este progresso que, se um lado nos facilita a vida, colocando o mundo aos nossos pés, ou as mãos ao alcance de um mouse que nos transporta para a China em questão de segundos, por outro, não tira a tranquilidade de antigamente - de dormir com as janelas abertas, sem grades ou muros com cercas eletrificadas.
A brisa sopra pela janela aberta e lá fora os carros passam em velocidade. Para onde estarão indo essas pessoas que resolveram ficar por aqui, ao invés de dançar o forró pé-de-serra no interior? Para onde vão, de onde vêm - tudo é um mistério. Arrisco olhar para dentro dos carros, mas o máximo que consigo ver são os faróis amarelos na frente e os faroletes vermelhos atrás - os bólidos deslizam no asfalto em busca de quê?
Os últimos rojões desse São João insosso da cidade que cresceu, estouram no ar e uns assovios finos me lembram os tempos de menino de Jaguaribe. Naquele tempo, o máximo que me permitiam os cruzeiros eram os mijões e diabinhos, além de uma caixa de chumbo.
Nem a fumaça das fogueiras por aqui existe mais. Como fazer fogueira em cima do asfalto? E aquele tempo de fumaceira, misturado com cheiro de pólvora das noites de São João, definitivamente acabou.
Olho pela janela pela última vez esta noite, antes de me recolher à leitura de Carlos Drummond e sinto na face a brisa que agora chegou forte - até parece que veio com cheiro de maresia.
Apago a luz da sala, acendo a luz de um abajur e nessa meia-luz, quase na penumbra, fico a ouvir "Eu e a brisa" do inigualável Johnny Alf:
"Ah! se a juventura que essa brisa canta
ficasse aqui comigo mais um pouco".
"Fica, oh, brisa fica, pois talvez quem sabe,
o inesperado faça uma surpresa..."
Carlos Pereira
Jornalista, escritor, engenheiro e
professor universitário
Publicada no jornal A União.
Edição de 03/07/2011.
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