Mais um assalto.
A cidade assume ares de metrópole exposta aos perigos da civilização.
Demorou um pouco, é verdade. Até que este lugar se tornasse perigoso como Chicago dos anos 30 ou 40 e o Rio de hoje em dia, foram precisos anos de abandono e de maus governos. Anos de costas viradas para os morros e as favelas, para os alagados e os cortiços.
A resposta é essa que aí está.
A todos esses anos de miséria consentida, a resposta vem pela boca das pistolas automáticas e pelas culatras dos fuzis que passam de um exército para outro. Dispensaram os soldados do exército constitucional, regular, fardado de verde-oliva e armaram essas legiões, essas centúrias, essas hostes de deserdados que nos mantêm como reféns em nossas próprias casas, em nosso próprios parques e avenidas.
Na verdade, é isto que nós somos.
Reféns do medo.
Não abandonamos os nossos muros altos, as nossas casamatas, os nossos cães de guerra, com medo do próximo ataque. Ninguém sabe de onde ele irá partir. Mas é certo que virá. Vivemos em estado de sítio, neste lugar vegetal que já foi um dia imenso sítio, de Tambiá a Trincheiras e de Tambaú ao Sanhauá.
Nas ruas, bandos armados montam suas emboscadas, arquitetam suas armadilhas.
Resistir, como?
Ameaçaram convocar os soldados que subissem aos morros e declarassem guerra aos traficantes, aos assaltantes, aos bandidos que vivem por lá. Mas a guerra não foi declarada e ninguém mais tem forças para resistir.
Estamos à beira da capitulação final. É fácil perceber.
Depois, não souberam guerrear. Não basta metralhar o primeiro miserável que aparecer na frente, com os bolsos cheios de papelotes de cocaína e cigarros de maconha. Não basta responder ao fogo pesado das Magnum e dos M-15 que vêm lá de cima.
É preciso saber libertar os reféns, assegurando oportunidades iguais para todos. Mas disso não se ouve falar. Enquanto não houver mais escolas, mais quadras de esportes, será sempre indispensável continuar construindo cada vez mais presídios neste país.
E continuaremos a perder a guerra, como se fossemos os Estados Unidos de uma América miserável, perdendo a guerra do Vietname.
Alguém precisa dizer alguma coisa urgentemente sobre isso, fora dos horários gratuidos da propaganda eleitoral.
Nós, os reféns, temos o direito de saber sobre o nosso destino.
Afinal, quem vai pagar o nosso resgate?
Luiz Augusto Crispim.
Escritor, jornalista e advogado.
A Dama da Tarde.
Página 21 e 22.
segunda-feira, 11 de julho de 2011
Luiz Augusto Crispim - A Cidade Proibida
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