quarta-feira, 17 de agosto de 2011

Carlos Romero -O Canto Do Galo


um conto - uma crônica


Com o erguimento de centenas de edifícios, os quintais foram desaparecendo. E quando a gente fala em quintal, lembra-se logo de galinheiros.Os quintais ficaram na saudade. Mesmo assim, nos raríssimos quintais ainda existentes, vez por outra, a gente ouve o canto suave e nostálgico de um galo. O galo foi tão presente nos tempos de Jesus, que este fez aquela advertência a Pedro: "antes que o galo cante, tu me negarás três vezes". E foi o que aconteceu . Aí temos o galo como referência. E dizem que ele é também um excelente relógio.

Galo cantando, que beleza! Minha mãe, toda vez que ouvia um deles cantando, enchia-se de saudade e tristeza. A tristeza de que tudo, um dia, chega ao fim. Mas não esquecer que o canto do galo, manhã cedo, é uma suave saudação ao dia que vem chegando. E não esquecer que os bem-te-vis também saúdam o amanhecer do dia.

Mas minha mãe tinha razão. O galo é uma advertência à efemeridade da vida. Induz-nos a muitas reflexões. A mesma coisa acontece aos sinos das igrejas.O filósofo e psicoterapeuta Thich Nhat Hanh dizia que o sino, sobretudo, os carrilhões, lhe enchiam de profunda melancolia. Mexia com os seus pensamentos. Na velha Europa, os sinos ainda ressoam, que é uma beleza.

E agora empoleira-se na minha cabeça esta indagação: será que alguém se incomoda com o mavioso e saudoso canto de um galo? Incomoda-se, leitor. Já ouvi um homem dizer que o cantar do galo lhe tirava o sono.

Tive pena dele. Quanto a mim é o contrário. Adoro ouvir um galo cantando à noite, o que, às vezes, acontece.

Lembremos que nada na Natureza perturba.O homem é que é o grande fazedor de barulho. O rumor do mar nos facilita o sono. As árvores são mudas. O sol, seja na alvorada, seja no crepúsculo, não emite o mínimo ruído. Só os trovões são a exceção da regra. Assim mesmo, eu gosto de ouvir trovões, que, quando eu era pequeno, pensava que era Deus passando um carão nos homens, ora veja só o leitor...

Pena que os quintais estejam se acabando. Nos grandes edifícios de apartamento jamais ouviremos o canto do galo. O natural ali não existe, e sim o artificial. E não duvido nada que a criança dos nossos dias nunca tenha ouvido o canto de um galo.

Desculpe-me, leitor, o meu saudosismo. É que toda a minha infância foi vivida num sítio, ouvindo cigarras, galos e passarinhos. Uma infância paraíso.

Mas, agora me deu vontade de reler o maravilhoso conto de Machado de Assis - "A Missa do Galo". Como o velho Machado escreve bem e fácil. Transparente e profundo. Não se esconde nas palavras.

E quem está mangando de mim agora é este computador. Tão orgulhoso, coitado. E ao mesmo tempo tão frágil... Basta a energia elétrica faltar, para ele emudecer. Acontece que o homem ainda não é um deus, mas um criador e inventor de segunda mão.

Carlos Romero
Professor e cronista.
Membro da Academia Paraibana de Letras.

Publicada no jornal Correio da Paraíba
Coluna Opinião.
Edição de 15/08/2011.

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