segunda-feira, 23 de abril de 2012

Paulo Coelho - Sobre Os Reis E Seus Sábios


um conto - uma crônica 

1 - O reino deste mundo



Um velho ermitão foi certa vez convidado para ir até a corte do rei mais poderoso daquela época.



- Eu invejo um homem santo, que se contenta com tão pouco - comentou o soberano.



- Ei invejo Vossa Majestade, que se contenta com menos que eu - respondeu o ermitão.



- Como você me diz isto, se todo este país me pertence? - disse o rei, ofendido.



- Justamente por isso. Eu tenho a música das esferas celestes, tenho os rios e as montanhas do mundo inteiro, tenho a lua e o sol, porque tenho Deus na minha alma. Vossa Majestade, porém tem apenas este reino.



2 - Os ossos do ancestral



Havia um rei da Espanha que se orgulhava muito de seus ancestrais, e que era conhecido por sua crueldade com os mais fracos.



Certa vez. caminhava com sua comitiva por um campo de Aragón, onde - anos antes - havia perdido seu pai em uma batalha, quando encontrou um homem santo remexendo uma enorme pilha de ossos.



- O que você está fazendo aí? - perguntou o rei.



- Honrada seja Vossa Majestade - disse o homem santo.



- Quando soube que o rei da Espanha vinha por aqui, resolvi recolher os ossos de vosso falecido pai para entregar-vos. Entretanto, por mais que procure, não consigo achá-los: eles são iguais aos ossos dos camponeses, dos pobres, dos mendigos e dos escravos.



3 - Chame outro tipo de médico



Um poderoso monarca chamou um santo padre - que todos diziam ter poderes curativos. - para ajudá-lo com as dores na coluna.



- Deus nos ajudará - disse o homem santo.



- Mas antes vamos entender a razão destas dores. Sugiro que Sua Majestade se confesse agora, pois a confissão faz o homem enfrentar seus problemas, e o liberta de muitas culpas.



Aborrecido por ter que pensar em tantos problemas, o rei disse:



- Não quero falar destes assuntos; preciso de alguém que cure sem fazer perguntas.



O sacerdote saiu e voltou meia-hora depois com outro homem.



- Eu acredito que a palavra pode aliviar a dor, e me ajudar a descobrir o caminho certo para a cura - disse. - Entretanto, o senhor não deseja conversar, e não posso ajudá-lo. Mas eis aqui quem o senhor precisa: meu amigo é veterinário, e não costuma conversar com seus pacientes.

Paulo CoelhoEscritor e letrista.Publicada no Jornal Correio da Paraíba. Caderno Milenium

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