Mestre, como faço para não me aborrecer? Algumas pessoas falam demais, outras são ignorantes, algumas são indiferentes. Sinto ódio das que são mentirosas. Sofro com as que caluniam. Pois viva como as flores - advertiu o mestre!
- Como é viver como as flores? - perguntou o discípulo.
- Repare nestas flores - continuou o mestre, apontando lírios que cresciam no jardim - elas nascem no esterco, entretanto, são puras e perfumadas. Extraem do adubo malcheiroso tudo que lhes é útil e saudável, mas não permitem que o azedume da terra manche o frescor de suas pétalas. É justo angustiar-se com as próprias culpas, mas não é sábio permitir que os vícios dos outros o importunem. Os defeitos deles são deles e não seus. Se não são seus, não há razão para aborrecimento. Exercite, pois, a virtude de rejeitar todo mal que vem de fora. Isso é viver como as flores.
Sobre o julgar
Um dos monges do mosteiro de Sceta cometeu uma falta grave e chamaram ermitão mais sábio para que pudesse julgá-lo. O ermitão se recusou, mas insistiram tanto, que ele terminou por ir. Antes, porém, pegou um balde e furou-o em várias partes. Depois, encheu o balde de areia e se encaminhou para o convento.
O superior, ao vê-lo entrar perguntou o que era aquilo.-Vim julgar meu próximo - disse o ermitão. Meus pecados estão escorrendo detrás de mim, como a areia escorre deste balde. Mas, como não olho para trás e não me dou conta dos meus próprios pecados, fui chamado para julgar meu próximo!
Os monges desistiram da punição na mesma hora.
Brígida Brito
Médica e terapeuta de regressão
Publicada no jornal Correio da Paraíba
Caderno Cultura


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