sexta-feira, 20 de julho de 2012

Onélia Queiroga - Lembrar É Preciso



um conto - uma crônica 
O tempo passa, mas as estrelas e a lua permanecem no céu. Enviam à terra o intenso brilho que possuem. Enternecem aqueles que as admiram com os seus olhares sonhadores, cheios de recordações de fases da vida em que conversar com os astros ainda era prioridade dos homens.

A música dolente tocava a alma dos românticos. As frases nela contidas constituíam preciosos tesouros, tantas vezes usados pelos galantes jovens, nos cartões dos presentes ofertados às suas amadas, como prova de amor e fidelidade.

As serestas invadiam as ruas, durante a madrugada. Entendia o moço esperançoso, ser propício instante para revelar seus sentimentos à mulher amada. A lua e as estrelas lá no céu encorajavam-no a enfrentar severo pai da sua musa que o olhava, certamente, pelas frestas da janela.

Lembrar é preciso que ainda existe uma música sonora e bonita que infunde na alma da gente toda essa época de esplendor, reiteradamente interpretada por uma voz, com verdadeira profissão de fé e de amor, durante toda a sua existência até emudecer, em 18 de abril de 1998.

Em 21 de junho, próximo passado, se vivo estivesse, Nelson Gonçalves teria completado noventa e três anos de idade. A pompa estelar celebra essa data piscando raios mais luminosos no envio de sua mensagem, assim: "Canta, canta voz de ouro! Responda com o seu canto ao apelo dos que querem ouvi-lo de novo".

Nelson, aonde estiver, venha em suas frondes gorjear. De preferência, com violão a soluçar os cânticos de outrora, nos montes, rios e cascatas, e em serenatas ao luar. Espalha a sua voz, de novo, em todos os rincões por onde andou. Permita que o seu pranto seja, também, os do que continuam a ouvi-lo nas novas radiolas que tocam LPs.

Nelson Gonçalves vive, ainda, no pranto dos desiludidos do amor, nos ares impregnados de perfume de mulher; nos caminhos da vida cheios de percalços, de sonhos, de dores, de esperança e de pleno retorno à luz.

Nelson ainda vive. O tempo não apagou a sua lembrança. Lá do alto, em fúlgidos clarões, nesse tempo tão longe, a árvore do seu canto viceja intacta, ao viajar, em ondas sonoras, até chegar no seu chão e nele derramar as imorredouras raízes da sua voz.



Onélia Queiroga.

Escritora e Professora de Ciências Jurídicasda Faculdade de Direito da UFPB.

Publicada no Jornal Correio da Paraíba

Coluna: Aos domingos.Caderno: Cultura/Lazer.Edição de 15/07/2012.

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