sexta-feira, 6 de julho de 2012

Onaldo Queiroga - Vencendo Preconceitos



umconto-uma crônica

Nos anos 1918, Monteiro Lobato criou um personagem chamado Jeca Tatu, uma figura rural, pálida, preguiçosa, barba no rosto, roupas rasgadas e que costumava andar descalço.

Esse personagem, nos anos 1940, terminou sendo atrelado e comparado, de forma equivocada, aos nordestinos. Essa imagem distorcida, até com um toque de preconceito, não agradava em nada os nossos irmãos nordestinos, pois sabiam eles que, na verdade, não eram fracos. Pois bem, conscientemente ou não, foi diante dessa inconcebível comparação que Luiz Gonzaga, inspirado em Pedro Raimundo, compositor e cantor do Rio Grande do Sul que se vestia com indumentárias sulistas tradicionais, resolveu, então, vestir-se com trajes que o remetessem às tradições de sua terra.

Gonzaga criou, assim, um personagem que, dali por diante, só cantaria vestido de gibão e chapéu de couro na cabeça. Um misto de vaqueiro e cangaceiro. Como sabemos, Gonzaga era devoto de Padre Cícero do Juazeiro, admirador e defensor do vaqueiro, como também fá de Virgulino Ferreira, o Lampião, o rei do cangaço do sertão. Esses ingredientes resultaram no personagem que Luiz escolhera para lhe identificar como artista oriundo do Nordeste brasileiro.

Contudo, quando chegou pela primeira vez no auditório da Rádio Nacional vestido de chapéu de couro e gibão, o Rei do Baião sentiu de perto a força do preconceito. O diretor do programa não deixou que ele fosse ao palco se apresentar com aquela indumentária, por entender que ele estaria divulgando o cangaceiro Lampião.Diante daquela imposição, Luiz Gonzaga não subiu ao palco naquele dia. Aliás, não subiu ao palco enquanto não foi aceita a sua nova indumentária. Durante mais de um ano, ele continuamente fez shows em cinemas, circos e, até mesmo em cima de caminhões, sempre vestido de gibão e usando o seu inseparável chapéu de couro. Sua persistência terminou por vencer o preconceito daqueles que faziam a Rádio Nacional.

Gonzaga, assim, mostrou mais um vez que não baixava a cabeça. Respondia ao preconceito e enfrentava, de pé, os obstáculos. Com sua coragem de não ceder a essa imposição, terminou por criar o seu personagem que é referência. Mas, o importante também é que esse personagem incorporado por Luiz Gonzaga acabou por abolir, de vez, a errônea comparação do nordestino ao Jeca Tatu. Foi uma verdadeira paulada naquela visão pejorativa que insistia em rotular o Jeca Tatu como uma figura rural nordestina. Valeu, Gonzaga. Sua música e seu modo de ser são exemplos a serem seguidos até hoje.

Onaldo Queiroga.Escritor e Juiz de Direito.Publicada no Jornal Correio da Paraíba.Coluna: OpiniãoEdição de sábado.30/06/2012.

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