Carlos Pereira - Sete Vidas - I - Grupo Escolar Santo Antônio
um conto - uma crônica
Dizem que sete é conta de mentiroso, mas não resisto quando já frequento o pós-setenta anos.Rendo-me à tentação e decido - a partir de hoje e por 7 domingos consecutivos - resumir em sete capítulos de mais ou menos 40 linhas cada, passagens interessantes que marcaram a minha vida ao longo dessas décadas. Não é autobiografia, nem pretendo me assemelhar aos gatos, com sete fôlegos - disso fiquem todos tranquilos.
A minha primeira vida, é claro, não lembro, a não ser pelo que me contaram. Sei que nasci em modesta casa de Jaguaribe, rua da Concórdia, 508. O parto foi feito em casa, por uma parteira (cujo nome nunca soube), bem assistida pelo Dr.Danilo Luna, competente médico da família.
Na parte da frente da casa, esquina com a Vasco da Gama, funcionava a venda do meu pai. Logo atrás, uma ampla sala que era de estar e de jantar de onde começava um corredor que ia até a cozinha e daí pro quintal e, ao lado, três (ou eram quatro?) quartos onde se acotovelavam, para dormir, umas dez pessoas entre adultos e crianças.
Até os sete anos, foi tempo de brincar e começar a estudar no Grupo Escolar Santo Antônio, na av. Primeiro de Maio, vizinho onde hoje é a Casa da Cidadania que, há muitos anos, foi sede do Cinema, instalado e feito funcionar pelos frades da Paróquia do Rosário, anexa.
Minha primeira professora, a inesquecível Dona Durvalina, me ensinou as primeiras letras e me encaminhou nos estudos de Português, Matemática, História, Geografia e Ciências. Por isso, há um pedaço do meu coração que lhe é dedicado.
De estatura mediana, mais para alta nos padrões da época, uma pele alva bem cuidada, usava vestidos discretos e cores sóbrias, tinha uma característica que a marcou para sempre - o jeito de arrumar os cabelos. Possuía-os em grande quantidade e jamais os expôs desalinhados ou soltos sobre os ombros. Isso porque usava, como penteado, um coque bem disposto sobre toda a cabeça, o que lhe dava um ar senhoril, respeitável e, sobretudo nobre. Ao ver, tempos depois, Grace Kelly no cinema, notei que a atriz também portava aquele mesmo tipo de penteado.
Suas aulas eram dadas com proficiência, dentro de um clima de respito e obediência, com disciplina que era alcançada sem demonstrações de arrogância ou ameaças. Eram momentos agradáveis até, algumas vezes, marcados pela ternura de uma professora que mais parecia u'a mãe - ela que nunca chegou a se casar. Admoestava com firmeza, porém sabia fazê-lo com a delicadeza dos que entendem que gritar não significa ser ouvido.
Um dia, um problema qualquer a levou a fundar uma escola particular na mesma rua onde funcionava o Santo Antônio - o Instituto Frei Afonso. Numa casa alugada da Primeiro de Maio, ela passou a receber os alunos e ex-alunos, preparando-os para o Exame de Admissão ao Liceu Paraibano. Lá, voltei a frequentar suas lições e fiquei para o Exame.
Carlos Pereira
Jornalista, escritor, engenheiro e
professor universitário
Publicada no jornal A União.
Edição 13/11/2010
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