quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

Onaldo Queiroga - O Eterno Rei Do Baião



um conto - uma crônica

Esse sertão com Luiz, esse São João com Baião, fogueira queima em brasa e balões vagueiam no ar. No terreiro o arrasta-pé levanta o poeirão. Triângulo toca tinindo e Zabumba responde com o coração. Sanfona no peito do sanfoneiro sustenta o Baião. É o Nordeste, é o Sertão, é Pernambuco, é Exu, é a Vila do Araripe, é o Sítio Caiçara que há cem anos das suas entranhas fez brotar ao mundo o Rei menino, o nosso Luiz Gonzaga do Nascimento.

É dia 13 de dezembro, dia de Santa Luzia, dia de Luiz Gonzaga e dia do Forró. É dia de festa, cem anos do Rei do Baião. Vila do Araripe e o próprio Exu repleto de gente. Ministros de Estado, governador de Pernambuco, artistas e o povo, sanfona, zabumba e triângulo, assim foi os cem anos de Gonzaga.

Em cada rosto sofrido te vejo, ainda, todos os dias. Sim, te vejo na face dos retirantes, na caminhada em meio às juremas e marmeleiros ressequidos, na travessia do riacho seco, na chuva que não vem, na Asa Branca voando em busca d'água, na vaca magra soluçando saudade do vaqueiro e do pasto, na triste partida de Patativa do Assaré. Vejo-te no cenário da seca desoladora, no sol que castiga, no desaparecer das águas, no gemido da terra, no gado morrendo de sede, no fogo que impera, no sertanejo que chora, no céu aberto dos voos das acauãs.

Mas também te vejo: no cheiro de chuva embrenhado no mato, no inverno amanhecendo com a passarada, no mugido do gado no curral, na água corrente enchendo os córregos, riachos, rios e açudes, na colheita do milho e do algodão, o eco das cantorias, dos aboios e das novenas. Te vejo: no cego Aderaldo, na romaria do padre Cícero Romão Batista (O Santo do Juazeiro), na légua tirana, na feira de Caruaru do Meste Vitalino.

Gonzaga, te escuto no chorar do assum preto, do carão, da acauã, do sabiá e do tiê. Ouço-te no soluçar do gado magro tangido pelo aboio triste do seu vaqueiro. Te ouço na voz de João Cláudio Moreno, o poeta de Piripiri/PI, que em voz te incorpora. Te ouço no tocar mágico da sanfona desse seu discípulo maior, Dominguinhos. Te vejo no palco, num acústico show de Pinto do Acordeom. Te escuto nos sons das sanfonas de Joquinha Gonzaga, de Zé de Manú, de Waldonys, de Flávio José e no fole de Zé Calixto.

Onaldo Queiroga é juiz de Direito.

Publicada no jornal Correio da Paraíba
Caderno Opinião
15/12/2012

Nenhum comentário:

Postar um comentário