quarta-feira, 1 de abril de 2015

Onaldo Queiroga - Carnaval Sofrência


No Brasil, dizem que o ano só começa após o Carnaval. Bom, janeiro já se foi, fevereiro chegou e, com ele, o Carnaval passou por nossas vidas trazendo festejos, cachaça, samba, axé, frevo, maracatu, rock, brega e até uma tal de "sofrência".

Aliás, "sofrência" vai ser o que vem por aí. Depois da quarta-feira de cinzas, com muita ressaca, o povo vai ter que enfrentar os extremos de uma avenida chamada realidade. De um lado, a estiagem e, com ele, a falta d'água. De outro, um enorme carnaval de subida de preços, que obrigará o cidadão/folião a ter muita resistência para subir as ladeiras repletas de aumentos de energia, de combustível, de mensalidades escolares, de alimentos, enfim, de tudo, menos do seu salário.

Nessa avenida, aumento é que não faltará. Esse carnaval vai ser longo e pesado. A elevação da inflação e da corrupção vem espalhando sujeira pra todo lado. A banalização desse agir com a força corruptiva parece que vem anestesiando a população brasileira. É como se tivessem quebrado na avenida um imenso frasco de lança-perfume e, aí, o povo movido por esse cheiro anestesiante de sofrência, que rima com demência, então, brinca com uma charge aqui, outra ali, faz humor com os desvios, desviadores e com sua própria sorte. E assim a vida vai passando e, pelo trajeto, não há e nem haverá trios elétricos, orquestras de frevo e escolas de samba. Haverá, sim, o bloco da corrupção,que, diante da impunidade, mostra-se perene, deixa e deixará sempre mais lixo, o qual, acumulado, já vem trazendo e trará ainda mais degradação e um grande apodrecimento do nosso existir.

Eita! Um amigo nos lembrou que depois do Carnaval começa a Quaresma e a Semana Santa vem por aí. Acontece, que esse mesmo amigo também logo nos falou que agora é hora dos coelhinhos da Páscoa e dos deliciosos chocolates. Está certo que isso aquece  um determinado setor comercial do Brasil, o qual espera um ano inteiro para vender seus ovos recheados de chocolates. Mas, cá pra nós, se no Natal o Papai Noel já é tão lembrado quanto o nascimento de Jesus, na Semana Santa, o Calvário e Crucificação do Menino Deus já vem sendo menos vivido e sendo trocado por ovos de páscoa. É triste, mas é a realidade.

No País do Carnaval, passada a Semana Santa, o folião tem que prestar contas ao Leão que, na avenida abril, cobra de todos os mortais o imposto de renda. Com tarifa elevada, o Leão não terá pena de ninguém. Vamos deixar o negativismo de lado. Mesmo com todo esse carnaval, que não é o da alegria do frevo, do samba e do axé, é preciso orar e rezar muito, acreditar que ainda é possível varrer essa avenida, jogar no esgoto corrupção e corruptos, para reacender a luz da dignidade e da esperança num futuro melhor.

Onaldo Queiroga é juiz de Direito.

Publicado no jornal Correio da Paraíba
Edição de 21 de fevereiro de 2015
Opinião.

Nenhum comentário:

Postar um comentário