quarta-feira, 23 de setembro de 2015

Lima Duarte


Lima Duarte
Poesia e emoção em cena
Lima Duarte deixou a pequena cidade de Sacramento, em Minas Geris, para se transformar em um dos maiores atores do Brasil
Ele tem o dom de encantar o público em cada trabalho na TV e como o simplório Josafá, em O outro Lado do Paraíso, Lima Duarte mais uma vez distribui de forma generosa todo seu talento e versatilidade em cena.

Saiu para o mundo

O ator nasceu em 1930 como Ariclenes Venâncio Martins. Com 18 anos, ouviu de seu pai que era para sair de casa e conhecer o mundo. Mal sabia seu Antônio que o filho se tornaria um dos nomes que fizeram a história da TV no Brasil e um dos atores mais queridos do público.

O guia de luz

Lima chegou em São Paulo em 1946 (em um caminhão de mangas) e começou a trabalhar como aprendiz na rádio Tupi. As imitações de garoto chamaram a atenção e ele foi convidado para fazer radionovelas. Foi então que ligou para a mãe para que ela lhe sugerisse um nome artístico. Dona América, que era médium, aconselhou o filho a usar o nome de seu guia de luz: Lima Duarte. E assim foi! Ele ficou 26 anos na rádio Tupi e participou da inauguração da TV, onde fez sua primeira novela e também trabalhou como diretor.

Sempre brilhante


O Bem-Amado foi a primeira novela de Lima Duarte na Globo aqui com Ida Gomes.
Em 1973, Lima fez a primeira novela em cores, O Bem Amado, na Globo, como Zeca Diabo, um de seus personagens mais marcantes, junto com Sinhozinho Malta. Sassá Mutema e dezenas de outros tipos inesquecíveis. Quanto talento!

Lima Duarte como o sábio Shankar, em Caminhos das Índias.

Lima Duarte em 1979 foi Malta Cajarana, em Pai Herói
Lima Duarte como milionário Afonso Lambertini, na novela Da Cor do Pecado, com Aracy Balabanian.
 Lima Duarte
O consagrado ator participou de vários momentos históricos da TV brasileira
Filho de um boiadeiro e de uma artista de circo, Lima Duarte, o Dom Peppino de I Love Paraisópolis, começou a trabalhar cedo em uma rádio, como uma espécie de 'faz-tudo'. Logo, virou sonoplasta. Daí para dar expediente como radioator foi um pulo. Nessa época, abandonou o nome de batismo, Ariclenes Venâncio, e adotou o pseudônimo que o fez popular. Após deixar Minas Gerais, foi para São Paulo, onde deu início à carreira que se confundiria com a história da televisão brasileira.
Pioneiro, esteve no elenco da primeira telenovela brasileira, Sua Vida me Pertence (1951), da extinta TV Tupi. E fazer parte da história da TV estava mesmo no destino desse grande ator...

Em cores

1973O Bem Amado

Lima Duarte como Zeca Diabo em O Bem Amado
Um dos trabalhos mais marcantes de Lima Duarte se deu em O Bem Amado (1973), recordada também por ter sido a primeira novela exibida em cores no Brasil. O ator deu vida a Zeca Diabo , um matador temido pelo povo da fictícia Sucupira.Controverso, ao mesmo tempo em que cometia crimes, era ingênuo e generoso. Temente a Padre Cícero, a quem se referia como 'Santo Padim Pade Ciço Romão Batista', tinha uma relação de subordinação e carinho com a mãe (Auriceia Araújo), a quem chamava de 'Santa Mãezinha'. O sucesso dessa obra de Dias Gomes foi tão grande que ela acabou virando seriado, indo ao ar entre 1980 e 1984.

1973 -  Os Ossos do Barão 
Lima Duarte como Egisto Ghirotto em Os Ossos do Barão 
Antes disso, Lima foi escalado para a trama Os Ossos do Barão (1973), onde interpretou o imigrante italiano Egisto Ghirotto.

Obras primas

1975 Pecado Capital 

Lima Duarte com Salviano Lisboa em Pecado Capital
Sua carreira então foi se consolidando, através de grandes personagens em novelas que seriam lembradas como verdadeiras obras-primas. Pecado Capital (1975) foi uma delas.Na trama que parou o país, coube ao ator dar vida a Salviano Lisboa, um viúvo rico e solitário que caía de amores pela jovem Lucinha (Betty Faria). O carisma de Lima fez com que o público se dividisse entre torcer para a heroína ficar com Carlão (Francisco Cuoco), seu grande amor, ou com Salviano, o homem que se transformou numa pessoa melhor por conta do sentimento que passou a nutrir por essa mulher.

1985 Roque Santeiro 
Lima Duarte como Sinhozinho Malta  em Roque Santeiro
Se Pecado Capital foi um acontecimento, o que dizer então de Roque Santeiro (1985)? No folhetim que marcou mais de 90 pontos de audiência em seu último capítulo, Lima interpretou Sinhozinho malta, fazendeiro e chefe político da cidade de Asa Branca, que só perdia em matéria de prestígio para a sua amada, a viúva Porcina (Regina Duarte), com quem sempre quis se casar - não só por ser apaixonado por ela, mas também para somar influências. O bordão de Sinhozinho Malta, "tô certo ou tô errado", caiu na boca do povo.

Carisma em dose máxima

1989O Salvador da Pátria

Lima Duarte esbanjando carisma na pele do sofrido Sassá de O Salvador da Pátira
A década de 80 se encerrou para Lima em grande estilo. Protagonista absoluto de O Salvador da Pátria (1989), ele emocionou o país ao fazer o simplório e analfabeto Sassá Mutema, que conheceu as letras como a ajuda da professora Clotilde (Maitê Proença), por quem se apaixonou. Sassá até entrou para a política, se tornando o homem mais poderoso de Tangará.

1992Pedra sobre Pedra



Lima Duarte como Murilo Pontes na novela Pedra sobre Pedra
“Soturno, inflexível e cruel”, segundo os desafetos; “compenetrado, rigoroso e justo” para seus correligionários. É assim que Murilo Pontes é visto em sua cidade e em Brasília, onde foi deputado federal por três mandatos. Oriundo de família de políticos, teve que sair da capital federal por problemas de saúde da mulher, Hilda (Eva Wilma).

1997 - A Indomada

Lima Duarte como Murilo Pontes em A Indomada
 Em 1997, o ator fez uma participação especial afetiva em A Indomada, onde interpretou pela segunda vez Murilo Pontes, personagem que havia feito em Pedra sobre Pedra (1992).

2004Da Cor do Pecado
Lima Duarte como Afonso Lambertinem Da Cor do Pecado
Da Cor do Pecado (2004) foi outro grande trabalho de Lima. Ele soube humanizar o frio empresário Afonso Lambertini, que estabeleceu uma linda relação com o neto Raí (Sérgio Malheiros).

2015 - I Love Paraisópolis
Lima Duarte como D.Peppino em I Love Paraisópolis
Em I Love Paraisópolis, Lima participou dos primeiros capítulos formando uma dupla cômica ao lado de Tatá Werneck, mas agradou tanto que agora está de volta à trama, onde promete dar o que falar.

A estrada de Lima Duarte



Lima Duarte
Com mais de 60 anos de carreira, o mineiro de 87 anos continua encantando o público com o simples Josafá, em O Outro Lado do Paraíso.

Como o senhor vê o Josafá, seu personagem?
"Ele aprendeu a amar com as montanhas, lagos e rios. Dizem que onde ele pisa está cheio de ouro, mas ele não procura isso. Ele viveu a vida dele longe, e nesse longe está o primeiro amor que é a Mercedes (Fernanda Montenegro). Os dois procuram no longe, encontrar um ao outro e amarem-se ainda, sem a manifestação imediata do amor, que é o sexo. Se eles não têm isso, ficou o quê? O amor."

Como o senhor trata isso na vida pessoal?
"Na vida pessoal eu sou um solitário, vivo sozinho e só penso nos personagens."Tenho uma´porção de filhos e netos nas Austrália e agora que descobri o celular fico vedo as fotos deles." 

Tem redes sociais?
"Eu não tenho nada disso. Só recebo fotos, um monte de besteira a respeito de mim, a respeito do mundo, a respeito de tudo. Só essas fotos aqui me bastam. Eu assisti ao início do rádio e ao fim do rádio".

Você lembra muito do passado?
"Outro dia estava gravando, e chegaram para mim dizendo :  'Grava aí porque depois temos que derrubar esse cenário',era o cenário do meu personagem. Gravei várias cenas, tinha uma televisão entre os objetos, era dia 18 de setembro, e me lembrei que nesse mesmo dia, Em 1950, foi ao ar a primeira transmissão de televisão da América Latina, a TV Tupi de São Paulo, e eu estava lá. Todos morreram, Hebe Camargo, Vida Alves, Walter Foster, só eu estou vivo e estou aqui ainda enfrentando mais um personagem. O espetáculo me tem como  amigo que vem contar piada. Num momento tão difícil como vive o país, o telespectador vai olhar para mim e dizer 'Olha esse aí, lá vem falar aquelas besteiras dele'. Eu gosto".

O público lembra muito dos seus personagens antigos?
"Lembram até demais (riso). Alguns do Sinhozinho Malta, de Roque Santeiro. Outros do Afonso Lambertini, de Da Cor do Pecado. O povo quer saber se continuo querendo melão, acredita? (frase repetida por Dom Lázaro em Meu Bem, Meu Mal, de 1990).É isso!"

O senhor continua morando em São Paulo?
"Agora eu moro num sítio no interior de São Paulo. Eu tinha um apartamento no Vidigal, vendi, comprei uma casa na Urca e trabalho aqui há 46 anos. Fico me dividindo entre os lugares".

Josafá é um homem simples, né? É isso o que o torna tão encantador?
"Simples? Ele é o do campo, mas o acho muito sofisticado. De uma delicadeza ímpar. Sim, é um matuto. Também acho Hamlet (personagem criado por William Shakespeare) um caboclo".

Como foi reencontrar Fernanda Montenegro?
"Já fizemos tanta coisas boa juntos. E ainda mais coisas mais ou menos e, meu Deus, quanta coisa ruim também (riso). Quando estamos em cena, gosto de fazer bonito. Não por mim, por ela. Ah, sem falar na Laura Cardoso. Uma velha amiga. Fazendo as contas, juntando as idades e os nove fora. Posso fizer que são quase 300 anos de amor."

Algum trabalho, em especial, marcou a parceria de vocês?
"Em Belíssima (2005), tínhamos até uma filha que ela teve coragem de jogar fora. E também estivemos juntos em Rainha da Sucata (1990), ela era minha vizinha, a Salomé. Uma grande amiga que, quando bati as botas, resolveu se jogar na sepultura e então todo mundo descobriu que ela me amava."

Sente-se reconhecido por estar em uma novela das nove tão bem acompanhado?
"Não ligo para isso, todo horário é nobre se eu fizer um trabalho de qualidade. Já fiz o que, uma dezena de novelas das oito? Não importa .O que espero é que as pessoas se divirtam comigo porque em última instância, são elas o patrão que nos paga".

Relembre alguns dos personagens da trajetória do ator.

O temido matador Zeca Diabo, que volta a Sucupira disposto a não matar mais, em O Bem Amado (1973).
O fazendeiro e político Sinhozinho Malta, que era apaixonado pela Viúva Porcina (Regina Duarte) em Roque Santeiro (1985).

O milionário Afonso Lambertini, pai de Paco e Apolo (Reynaldo Gianecchini) com Aracy Balabanian em Da Cor do Pecado (2004).
O comerciante turco Murat que no passado, viveu um amor com a vilã Bia Falcão (Fernanda Montenegro), em Belíssima (2005).
O rico brâmane Shankar, que criou Bahuan (Márcio Garcia), em Caminho das Índias (2009).

"Para ser um grande ator, é preciso viver muito! Acho difícil que um jovem seja realmente grande. A grandeza está em ter olhado, passado por tantas coisas e transformar isso em personagens", diz Lima Duarte em entrevista ao jornal Extra.

Na telinha

1951 - Sua Vida Me Pertence (TV Tupi)
1973 - O Bem  Amado (TV Globo)
Zeca Diabo
1973 - Os Ossos do Barão
Egisto Ghirotto
1975 - Pecado Capital
Salviano Lisboa
1977 - Espelho Mágico
Carijó
1977 - O Astro
Márcio Hayala
1979 - Pai Herói
Malta Cajarana
1982 - Paraíso
João das Mortes
1985 - Roque Santeiro
Sinhozinho Malta
1989 - O Salvador da Pátria
Sassá Mutema
1990 - Meu Bem, Meu Mal
Dom Lázaro
1992 -  Pedra sobre Pedra
Murilo Pontes
2004 - Da Cor do Pecado
Afonso Lambertini
2015 - I Love Paraisópolis
D. Peppino
2017 - O Outro Lado do Paraíso
Josafá

Por Cristina Souza
Por Flavia Serra
Texto: Fernanda Rosa/Colaboradora
Entrevista: André Luis Romano/Colaborador.

Publicado na revista TV Brasil
Edição de nº 809/921
Guia da TV n/n 557

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