terça-feira, 6 de outubro de 2015

Lena Guimarães - Medo Justificado




Houve um tempo no qual as histórias sobre violência e medo sempre aconteciam em São Paulo ou Rio de Janeiro, por causa do tráfico. O Nordeste era associado a sol, água de coco e paz no litoral, ou seca e pobreza nos sertões. Em João Pessoa, poderíamos até dormir em redes armadas nos terraços, durante os quentes verões.

Não faz tanto tempo. Quando fui repórter da Folha de São Paulo, recebia pautas sobre tráfico e sempre tinha que me justificar com o Editor, porque os relatos da Paraíba eram tão insignificantes que geralmente não entravam na cobertura nacional. Em minha defesa, repetia que dirigia de janelas abertas à noite, que parava nos sinais de trânsito e que chegava à praia para correr, ainda madrugada, sem temer malfeitores.

Esse paraíso desapareceu. João Pessoa agora é a 5ª capital onde mais ocorrem crimes violentos no Brasil. E não é nenhuma Ong Mexicana que está dizendo. São os números do Fórum Brasileiro de Segurança Pública de 2014. A taxa de homicídios da capital paraibana é de 61,6 por cada 100 mil habitantes. Só perdemos para Fortaleza (77,3), Maceió (69,5), São Luis (69,1) e Natal (65,9).

Das 10 capitais mais violentas do Brasil, oito estão no Nordeste. São Paulo é a que tem a menor taxa de homicídios. O Rio de Janeiro, com seus traficantes famosos e guerras por territórios, está na 23º lugar, o que evidencia a gravidade da situação da Paraíba e a necessidade de ações diferenciadas como as que mudaram a segurança nas duas maiores cidades do Brasil.

Da tribuna da Câmara dos Deputados, Pedro Cunha Lima cobrou explicações ao Governo da Paraíba. "Os paraibanos não suportam mais conviver com o medo" disse. E lamentou: "Na Paraíba, a população cresce e a nossa Polícia diminui". Na Assembleia, Dinaldinho Wanderley defendeu "atitude enérgica e urgente". Após historiar os crimes da semana, disparou: "Aqui virou terra sem lei".

Os deputados têm razão. Por maior que seja o esforço que o Governo do Estado vem fazendo, não está sendo suficiente. Tem que se tentar algo diferente contra o crime. Desenvolvimento e qualidade de vida não rimam com medo.

Lena Guimarães
Jornalista

Publicado no jornal Correio da Paraíba
Edição de 2 de outubro de 2015
Política

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