sexta-feira, 20 de julho de 2018

Dia De Medo Para Quem Não Tem Teto



"Campo de guerra": PF cumpre determinação da Justiça para desocupar imóveis onde viviam 250 famílias.

Ruas bloqueadas, diversas viaturas de prontidão, policiais armados, ambulâncias, bomba, balas de borracha, helicóptero, sobrevoando o Bairro das Indústrias, em João Pessoa. O cenário no local, na manhã de ontem, mais parecia o de um campo de guerra, mas se tratava de uma operação de reintegração de posse. De um condomínio residencial inacabado, foram retidas, de forma compulsória, 250 famílias de sem teto que haviam ocupado os imóveis. A ação ocorreu por volta das 5 horas da manhã, quando todos ainda dormiam.Eles tiveram que deixar suas casas, deixando móveis, roupas, documentos para trás, e ficaram no meio da rua, sob forte chuva.

Durante a manhã de ontem, enquanto os apartamentos eram esvaziados, moradores se perguntavam o que fazer. Em cada esquina, olhares perdidos, desamparados de crianças sem noção do que estava acontecendo, de adultos e idosos sem ter para onde ir e que nem sequer tiveram o direito de pegar seus pertences. Houve tensão no local e confronto entre policiais e moradores.

Alguns passaram mal e tiveram que ser socorridos. O aparato foi para cumprir ação determinada pela Justiça Federal, de desocupação e reintegração de posse do Residencial Vista do Verde I e II, invadido há cerca de um ano, antes da conclusão da obra. 

A ocupação deveria ter ocorrido em maio, após as tentativas de acordo para saída voluntária e descumprimento de liminar pelos moradores e Justiça determinou a operação.

Até o fechamento desta edição. a maior parte das famílias ocupava uma praça, no conjunto Vieira Diniz. Grávidas, crianças e idosos passaram o dia sem ter como tomar banho, comer e dormir. Segundo os ex-moradores do residencial, poucas foram as pessoas que tinham casa de parentes e amigos para se abrigar temporariamente. 

Donas de casa relatam incerteza

Tensão. Dona de casa Paula Santos foi atingida por bala. 
Quem tem que deixar o residencial sofre agora com a incerteza de não ter um teto para abrigar a família. A dona de casa Milena Camila Rodrigues, de 26 anos, grávida de cinco meses e mãe de duas crianças foi uma das despejadas. Junto com o marido, cercada pelas outras família, ela ficou ao relento, sob a chuva sentada numa calçada, ao lado dos filhos  e dos poucos pertence que conseguiu pegar.

'Eu morava com minha mãe, mas tive que sair da casa dela.Faz quase um ano que estou aqui, e vim com a esperança de ter um lar para minha família.Não tenho condição de pagar aluguel e meu marido só faz bicos. É um absurdo fazer isso, ficar com crianças na rua, na chuva, sem comida, sem nossas coisas", lamentou. 

"Estamos sem destino. Acordamos com os policiais derrubando o muro, jogando bombas . Fui atingida por uma ", comentou a dona de casa Paula Andréa dos Santos.

Marinalva da Conceição Santos, de 48 anos, também foi despejada. Ela morava no bairro Padre Zé quando ficou desempregada e, há nove meses, ocupava um dos apartamentos.

PF: integridade preservada

O mandado judicial  de reintegração de posse, expedido pela 3ª Vara Federal de João Pessoa, nos autos do processo 0802711-11.2017.4.05.8200, foi cumprido pela Polícia Federal. A PF informou que todos os órgãos que participaram da operação agiram para preservar a integridade física das pessoas, aliada à desocupação pacífica dos imóveis invadidos, para que possam ser concluídos e destinados às famílias cadastradas no programa social de habitação.

A Justiça Federal na Paraíba (JFPB) determinou a operação de desocupação compulsória para a reintegração de posse do Residencial Vista do Verde I e II após descumprimento de decisão liminar (a liberação deveria ter em 22 de maio).Além disso, foram diversas tentativas de acordos e ações de sensibilização, como visitas e reuniões com os moradores, feitas pelas entidades que estavam ontem no local.

"O que ocorre é que a invasão do Residencial Vista do Verde está impedindo a conclusão da obra, dificultando a execução de programas de habitação social no estado da Paraíba, financiados pela Caixa Econômica Federal, além de estar prejudicando as famílias destinatárias  dos imóveis, as quais estão comprovadamente em situação de vulnerabilidade social e em fila de espera há mais de seis anos" diz a Justiça Federal.

O primeiro encontro ocorreu no dia 19 de abril, e o segundo, no dia 25 . Em maio , os setores envolvidos frisaram a importância da desocupação pacífica no prazo de 15 dias.

Moradia

Construção financiada pela CEF é destinada a famílias em situação de vulnerabilidade social, cadastradas há mais de seis anos no Programa Minha Casa, Minha Vida. 

Lucilene Meireles

Publicado no jornal Correio da Paraíba
Edição de 13 de julho de 2018
Cidades

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