Sentado, cabisbaixo, nada notava do movimento que o cercava... Naquele banco de praça era onde aquele homem de corpo cansado pelo peso dos anos passava a maior parte de seus dias, já não podendo esconder sua tristeza.
Olhava fixo as mãos espalmadas, como a se lembrar de quanto elas trabalharam para o sustento de sua família. Marcas de cicatrizes se faziam ver e ele procurava em sua memória a origem de cada uma delas...
O corpo já não correspondia à mente ainda em plena atividade, e hoje, vivendo sob a tutela dos filhos, se sentia um “peso morto”. Sua ínfima aposentadoria não atendia nem o suprimento de seus remédios, para controle das moléstias advindas com a idade...
Estar ali solitário, mesmo que no meio de uma multidão, já se transformara em uma rotina. Em casa passou a ser quase um estranho, ignorado pelos familiares. Ali na praça, pelo menos seus ouvidos e seu coração tinham uma trégua das ácidas críticas por já não corresponder às exigências de seus familiares.
Até de vagabundo já foi tachado por seus filhos e, nestas horas, procurava esconder as grossas lágrimas que teimavam em sair, lágrimas estas que tinham origem naquele coração hoje massacrado pela indiferença de seus jovens filhos...
Como ele gostaria ainda de ser o arrimo daquela família!!! Mas seu corpo hoje em dia precisa de cuidados diante das mazelas trazidas pelo tempo. Boa parte de sua saúde foi bem usada em prol daqueles que ele tanto ama e hoje o relega a companhia de si mesmo.
As lembranças de tantas lutas lhe dá uma mistura de saudosa alegria e de dor... No sua casa, que ele tanto lutou para servir de abrigo aos seus amados, hoje já não a tem como porto seguro, pois a solidão daquele banco de praça, o afaga muito mais que no seu já não correspondido lar.
Divagava à procura de soluções para seus derradeiros dias nesta vida. Pensava, sem resposta, se perguntando quanto custaria um abrigo para idosos. Será que sua minguada aposentadoria daria para pagar um abrigo e seus remédios, hoje imprescindíveis...?
A ideia de deixar seus filhos doía muito em seu coração, mas se conseguisse, mesmo com a solidão e saudade dos mesmos, se tornaria mais fácil para eles tocarem as suas vidas. Lembrava-se dos netinhos, que entre todos, eram que na sua inocência, davam mais atenção sem a acidez das críticas, eles ainda eram autênticos naquilo que se expressavam.
Adorava quando eles vinham até ele, em seu cantinho definido pelos filhos e faziam perguntas, umas absurdas e engraçadas, mas lhe davam a chance de poder falar sem se sentir culpado.
Aquela solidão, em meio à multidão, não fixou residência em seu peito, sozinha. Trouxera companheiros, tais como a tristeza, a sensação de ser um traste, a angústia enorme... Inquilinos que ele já não sabia como se desvencilhar...
Procurou justificar as ações de seus amados filhos, procurou culpa em si mesmo, lembrou-se de seus pais quando velhos e doentes assim como ele agora está. Debalde procurou ver onde errara, pois jamais deixou de ver nos pais os exemplos e sempre cultuou o respeito por aqueles que lhe dera a vida.
"Não, a culpa deve ser minha, mas, em que?”
Não queria admitir a falta do amor filial daqueles que amava tanto, era apenas a maneira de ser de cada um. Procurava alguma coisa que justificasse seus comportamentos.
Lembrou-se da saudosa companheira, mãe de seus rebentos, que controlava seus ímpetos, propensos à negatividade, mas ela se foi e ele ficou, e o tempo não perdoa.
Lembrou-se de alguma coisa que ouviu de algumas pessoas, como uma tal de Lei de Causa e Efeito, sendo a mesma a comprovação da Justiça Divina e uma tal de reencarnação que ele não entendia bem, mas diziam que era o efeito da Lei que hoje lhe visitava a mente. Será?
Ali, aquele idoso sofrido, ficava na companhia de seus pensamentos atrás de um consolo para o que sentia na pele... apenas ele consigo mesmo.
NATI - Núcleo de apoio à Terceira Idade

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