Carlos Romero
Conheci Mestre Carlos Romero nos idos de 1981, quando me submeti ao concurso para Professor Universitário de Direito da CCJ/UFPB, e claro, de logo tornei-me seu amigo. E quem não se tornara amigo de Carlos Romero? Revestido com aquela energia tranquila, sua expressão de serenidade desfazia quaisquer anti-sentimentos: assim, encontrarmo-nos com ele, significava mudar o rumo do espírito, desfazer ressentimentos, irritações, amarguras, e iluminar a própria alma! Este era o espírito extraordinário de Carlos Romero: este era seu poder imenso, o da transformação pelo silêncio, o da mensagem sem palavras.
Carlos Romero foi um artífice da palavra escrita, nos textos maravilhosos que nos emocionam de forma permanente, e incentivam ao confronto, à perseverança diante das lutas da vida.
Mas apenas os mais sensitivos, poderiam verificar mais uma qualidade de Carlos Romero: a mensagem no silêncio. Em uma de suas diletas crônicas, ele enfatizava tal dimensão: como é bom o silêncio! Ouvir a própria voz, refletir sobre si mesmo... ou não ouvir nada! Manter-se tão somente no silêncio, como o mergulhador que, sob as águas, usufrui o silêncio da profundeza do mar.
Para mim,foi fácil entender o espírito de Carlos Romero. Na minha condição de monástico, ex-monge beneditino de Olinda/PE, aprendi a amar o silêncio e a escuridão; não porém, a escuridão das trevas, mas a da que conduz luz , ao encontro de si mesmo. Foram valores imperecíveis na minha vida. Afinal, no Mosteiro de São Bento de Olinda/PE, no silêncio, ouvi a Voz de Deus; e na escuridão , eu O vi.
Mas algo marcou profundamente minha amizade com Mestre Carlos Romero. O tempo já se vai e a memória amiúde falha. Nos idos, salvo engano, de 1985, ministrava Carlos Romero a disciplina Direito Comercial, e a mim cabia a de Direito Empresarial.Já próximo do fim do segundo semestre, teve o Mestre o desconforto profundo de ver-se a viuvez faltou-lhe D.Regina Coeli, sua dileta esposa (creio que era esse seu nome). Na minha solidariedade ao mesmo, pedi-lhe para ministrar o final do conteúdo acadêmico de sua disciplina , deixando-o absorto em si mesmo, e na revigoração de suas forças diante do infausto.
Aprofundou-se a amizade . Foi meu grande lucro. Encontrei-o algumas vezes no calçadão de Tambaú e me dizia "D.Regina está aqui , caminhando comigo, me acompanhando".
Homem de sensibilidade e de música (como sou igualmente apaixonado pela música clássica), surgiu-lhe, como bênção de Deus, D,Laurinda, companheira extraordinária que o acompanha até sua passagem espiritual.
Fica difícil expressar a grandeza do espírito de Carlos Romero por palavras. É como se quiséssemos segurar uma nuvem.(...). Apenas uma pessoa, de idêntica grandiosidade espiritual assim se expressa: seu DNA maior, seu filho Germano Romero. Espírito que transita entre os extremos da cultura humana: homem do traço, da linha, do projeto, do desenho, e do cálculo (Arquitetura), e intérprete dos sentimentos expressos nas noas musicais, exegeta do contido na harmonia dos sons, cromista do espírito dos grandes Mestres da Música Clássica Universal (Bacharel em Música).
Para finalizar, e de modo metafórico, neste instante em que Carlos Romero, como um asteroide de intensa luz (seu espírito), rasga a escuridão do espaço (nós, por ele iluminados), deixando imagem imperecível de sua luz cósmica, levanto os braços a Deus e agradeço: obrigado Senhor, fiz parte de sua História!
Antônio Carlos Moreira
Prof. Aposentado do CCI/UFPB.
Publicada no jornal Correio da Paraíba
Edição de 26 de janeiro de 2019.
Opinião.

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