É a viagem longa e as pernas dormentes, que logo se desentorpecem aos primeiros passos pela rua antiga das brincadeiras e serões à porta.
É a luz do candeeiro a espreitar pelas janelas e a dançar nas paredes ao som das gargalhadas que sempre dá a felicidade.
São as escadas que se sobem até ao quarto que nos conhece desde que nascemos e onde nos escondemos para sermos encontrados quando brincamos às escondidas.
Sim, queremos sempre ser encontrados, mas é algo que nem sempre é possível quando crescemos.
Quanto maiores somos, mais difíceis somos de encontrar.
Na infância, o Natal é o sapatinho deixado na lareira e o regresso descalço à cama feita de lavado, sem medo do escuro que virá um dia, mas nessa altura não, está tudo muito longe, mais longe do que o cimo do guarda-fatos onde a mãe esconde os presentes.
Na infância, o Natal é a avó com as mangas arregaçadas até ao cotovelo para amassar com força a massa que enche o alguidar de barro e olhar para mim pelo cantinho do olho para ver se estou quieta ou já a fazer baloiço da cadeira de palha em que me sento.
O Natal é o céu estrelado, azul de espanto, sem perder a luz ainda que noite cerrada, sem perder de vista a manhã que dorme, quieta como a lua redonda que se olha ao espelho nas paredes caiadas.
O Natal é fazer a mala para vir embora, com o coração tão apertado como o não caber mais nada dentro dela e termos de nos sentar em cima para a conseguirmos fechar.
O Natal é olhar para trás pelo vidro quando o carro começa a ir embora e ver a avó limpar os olhos ao avental e a fazer adeus ao seu Menino Jesus.
lado.a.lado

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