segunda-feira, 12 de maio de 2025

A águia atacou a cobra




Isaias Bastos

A águia atacou a cobra em uma pedreira e, enquanto a arrastava para as alturas, a cobra gritou desesperada:

O menino que por ali passava viu o filhotinho chorando entre as pedras.

Com o coração apertado, se compadeceu e levou o pequeno para casa, jurando a si mesmo que cuidaria dele com carinho.

O menino já criava outros dois animais que havia resgatado em tempos difíceis: um escorpião e uma aranha.

Mas o filhote de cobra era diferente. Era órfão, indefeso...

E por isso, o menino lhe deu mais atenção, mais carinho, mais afeto.

Enquanto a cobrinha dormia aconchegada em seu peito, o escorpião, antes alegre, agora se escondia pelos cantos, lançando olhares frios.

A aranha, que antes tecia belas teias, agora fazia fios bagunçados, como se estivesse tomada por raiva.

Talvez, o escorpião e a aranha estivessem morrendo de ciúmes.

Porque o menino dava mais atenção a cobra.

Numa noite fria, enquanto o menino dormia, sentiu uma dor aguda no braço.

Acordou assustado, com o veneno queimando em suas veias.

Tonto, acendeu a luz e, cambaleando, chamou os animais.

— Foi você, escorpião? — perguntou, com a voz falha.

O escorpião, encolhido no canto, apenas balançou a cabeça negativamente.

— Foi você, aranha?

A aranha, trêmula em sua teia, também negou.

Sem saber o que fazer, o menino correu para a sala, onde seu avô descansava no velho sofá.

— Vovô. fui picado! mas não sei quem foi!

O avô, olhou com sabedoria e perguntou:

— Você suspeita de alguém?

O menino, com lágrimas nos olhos, respondeu:

— Com certeza vovô, foi a aranha ou foi o escorpião, com ciúmes do carinho que dou a cobra.

O avô, com um olhar sério, apontou para um quadro antigo na parede — uma pintura da Última Ceia de Jesus e os 12 apóstolos.

— Veja para quem Jesus dá o primeiro pedaço de pão — disse.

O menino olhou atentamente e respondeu:

— Para Judas, vovô... para o traidor.

O avô suspirou:

— Isso mesmo, meu filho. Ele deu o primeiro pedaço ao Traidor, porque era quem estava mais próximo dele.

— O traidor, filho. Nunca está longe.

Naquele instante, o menino sentiu o sangue gelar.

Pegou a cobra que estava em seus braços e colocou no chão. e a encarou com desconfiança.

A cobrinha ergueu a cabeça. soltou uma risadinha fina, sibilante.

Sem dizer nada, deslizou para fora da casa, sumindo entre as árvores. Revelando ser a traidora silenciosa, que o menino jamais desconfiou.

Na vida também é assim:

Quem te trai não é quem está longe.

É sempre quem a gente aquece no peito, quem a gente protege, quem a gente chama de amigo.

Por isso, abra bem os olhos: o abraço mais apertado... pode esconder o veneno mais mortal.

Escritor autor Isaias Bastos

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