quinta-feira, 22 de maio de 2025

O coração do lobo




Raquel Ferreira


Na floresta do Poente, um lobo de pelos prateados salvou um esquilo que estava preso numa armadilha de caçador. 

O esquilo, tremendo, prometeu:

— Um dia, vou te retribuir.

O lobo riu.

— Um fiapo de vida como você? Eu não preciso de nada.

Mas libertou o bichinho mesmo assim, e partiu.

Meses se passaram. 

O inverno chegou cruel. 

O lobo, ferido após enfrentar um urso por comida, caiu à beira de um rio congelado. 

Sangrava. Os olhos, antes tão ferozes, agora apagavam como brasa na chuva.

Sozinho. Esquecido.

Foi então que ouviu passos miúdos.

Era o esquilo.

E com ele, vieram coelhos, lontras, raposas, até um veado, cada um trazendo musgo, raízes, folhas e mel. Fizeram curativo, aqueceram o lobo, alimentaram-no.

O lobo, com os olhos marejados, murmurou:

— Por quê? Eu sou só um velho lobo...

O esquilo subiu no seu peito e disse:

— Porque um gesto de bondade acende cem corações. E o seu acendeu o meu.

O lobo chorou. 

Pela primeira vez, não de dor, mas de algo novo: pertencimento.

Quando a primavera chegou, o lobo já andava firme. Liderava não com garras, mas com gratidão. 

Não era mais temido — era respeitado.

E o caçador? Voltou, sim. Mas dessa vez, não viu um lobo solitário. Viu uma aliança selvagem de amor e retribuição.

E fugiu.

Moral da história:

Quem planta bondade colhe gratidão. 

E quem é lembrado com amor... nunca está só.

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