quinta-feira, 8 de maio de 2025

A águia e o cachorro



Rick Oli Reflexões

O cachorro viu a águia descer sobre o campo e correr com as garras sobre o seu território. Aquilo foi demais para ele.

Avançou. Mesmo com as patas sujas e o corpo limitado à terra, lançou-se em latidos ferozes como se pudesse alcançar o céu. 

A águia sequer o olhou. Pousou sobre uma pedra alta, com o peito inflado e o olhar distante, como quem observa um mundo que o outro não entende.

“Você se acha melhor porque voa?”, rosnou o cachorro, ofegante. “Fica lá em cima, como se fosse de outro reino. Aqui embaixo é onde a vida acontece de verdade.”

A águia permaneceu imóvel.

“Desça de verdade, e verá como é viver sem asas.”

Ela apenas respondeu:

“Já desci. E voltei inteira. Isso te assusta.”

O cachorro calou, confuso. Ninguém jamais lhe falara assim. Nascera preso a um quintal, depois solto em terras secas. 

Aprendeu que sobreviver era correr, farejar, latir, proteger. Achava que isso era tudo. Não compreendia voos. Não compreendia silêncios.

Por semanas, o cão passou a observar a ave. Via sua solidão no alto, sua disciplina com os ventos, a forma como escolhia a presa — e como, muitas vezes, a poupava. Ela não atacava por fúria. Era outra lógica. Outro tempo.

“Por que volta sempre pra cá?”, perguntou ele, um dia.

“Porque aqui há algo que não voa, mas pode ser mais perigoso que o céu: o orgulho.”

O cachorro mordeu o ar, riu.

“Orgulho? Eu? Você é que se esconde entre nuvens.”

A águia apenas alçou voo, cortando o silêncio como uma lâmina.

Meses se passaram. 

Um incêndio varreu os campos. 

Os animais correram. 

O cachorro ficou, tentando salvar o que acreditava ser seu — um ninho velho de ossos, uma sombra de território.

Quando o fogo se aproximou da encosta, ele já não tinha para onde fugir. As patas queimavam. O fôlego sumia. Foi quando ouviu o som mais improvável: o bater de asas.

A águia mergulhou como um raio. Agarrou o cão pelas costas. Ele gritou, não de dor — de incredulidade. Subiram. Subiram tanto que o ar ficou fino.

Ela o deixou numa clareira do outro lado da serra, onde a grama ainda era verde e a fumaça não chegava.

Atordoado, o cão olhou para ela e murmurou:

“Você me salvou.”

“Você teria feito o mesmo?”

O cachorro não respondeu. Pela primeira vez, abaixou a cabeça. Não por submissão, mas por reverência.

A águia deu-lhe as costas.

“Nem todo voo é feito com asas. Alguns exigem outra coragem: a de ver de cima o que antes só se via de dentro.”

E desapareceu entre os ventos.

"Mas os que esperam no Senhor renovarão as forças, subirão com asas como águias; correrão, e não se cansarão; caminharão, e não se fatigarão."

– Isaías 40:31

Autor: 

Rick Qli Refleões

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