segunda-feira, 4 de agosto de 2025

"A Cerca"



Dilma Domingues
Gratidão

Dona Iolanda morava sozinha no sítio das Palmeiras desde que o marido partira, há doze anos. 

A casa branca, com varanda de madeira e telhado antigo, parecia suspensa no tempo, entre as roseiras que ela ainda regava todos os dias e o cheiro de café que invadia o terreiro às cinco da manhã.

No sítio vizinho, separado apenas por uma cerca de arame farpado e décadas de silêncio, morava Seu Agenor. Viúvo, duro no trato, conhecido por falar pouco e resmungar muito.

— Esse homem não tem miolo nem coração — dizia Iolanda às galinhas, enquanto lançava milho no chão, como se elas entendessem.

A última vez que trocaram palavras foi no velório do marido dela. Ele disse:

— Meus sentimentos.

Ela respondeu apenas com a cabeça. Achou o tom seco. E não respondeu à visita com café nem com abraço.

Desde então, a cerca virou divisa de mais do que terra. Era uma linha entre mágoas antigas, mal-entendidos e silêncios que nunca foram quebrados.

Mas Iolanda notava.



Notava o cavalo dele mancando, as janelas sempre fechadas, o rádio que parou de tocar moda de viola. Notava que os caminhões de leite já não paravam ali, e que ele não cortava mais lenha como antes.

Certa tarde, enquanto varria a varanda, viu os bois de Agenor soltos no pasto dela, devorando o capim recém-plantado. Respirou fundo. Pensou em gritar. Mas algo a deteve.

No dia seguinte, bem cedo, ela mesma abriu a porteira e empurrou o resto do rebanho para o lado de lá.

E deixou, pendurado na cerca, um saco com pão de queijo e uma bilha de café quente. Não escreveu nada. Nem assinou.

Dois dias depois, encontrou a bilha de volta. Limpa. E dentro, um pequeno maço de folhas de boldo, amarradas com barbante.

Iolanda entendeu o gesto: ele sabia que ela tinha problemas de estômago.

Começou ali. 

Uma troca silenciosa de coisas pequenas: ovos, doce de leite, mudas de alecrim. Nunca se falavam, mas a cerca deixou de ser muralha e virou apoio.

Até que numa noite de tempestade, a luz caiu nos dois sítios. 

Iolanda olhava a chuva pela janela quando ouviu um barulho na varanda. Era Agenor. Molhado até os ossos, com um lampião na mão.

— Vi que a luz apagou e... me preocupei. — disse, meio sem jeito, encarando os próprios sapatos.

Ela olhou pra ele como se olhasse outra pessoa. E respondeu:

— Entra, homem. Senão pega uma pneumonia e vai me dar trabalho.

Tomaram café morno à luz do lampião. Conversaram sobre o tempo, as vacas, os filhos que moravam longe demais. Ele tocou no braço dela, de leve, ao se despedir. E ela não recuou.

Depois disso, passou a visitá-la aos sábados.

Chegava com queijo fresco e saía com bolo de fubá. Não falavam de sentimentos. Mas sentavam-se lado a lado na varanda, em silêncio, como quem entende que a companhia certa não precisa de explicações.

Um ano depois, um novo portão de madeira foi construído no meio da cerca. Sem alarde. Sem anúncio.

E foi por ali, por aquele vão de madeira envelhecida, que dois corações velhos, mas ainda dispostos, aprenderam que o tempo nunca é tarde quando a alma ainda floresce.

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