Dilma Domingues
Gratidão
Dona Iolanda morava sozinha no sítio das Palmeiras desde que o marido partira, há doze anos.
A casa branca, com varanda de madeira e telhado antigo, parecia suspensa no tempo, entre as roseiras que ela ainda regava todos os dias e o cheiro de café que invadia o terreiro às cinco da manhã.
No sítio vizinho, separado apenas por uma cerca de arame farpado e décadas de silêncio, morava Seu Agenor. Viúvo, duro no trato, conhecido por falar pouco e resmungar muito.
— Esse homem não tem miolo nem coração — dizia Iolanda às galinhas, enquanto lançava milho no chão, como se elas entendessem.
A última vez que trocaram palavras foi no velório do marido dela. Ele disse:
— Meus sentimentos.
Ela respondeu apenas com a cabeça. Achou o tom seco. E não respondeu à visita com café nem com abraço.
Desde então, a cerca virou divisa de mais do que terra. Era uma linha entre mágoas antigas, mal-entendidos e silêncios que nunca foram quebrados.
Mas Iolanda notava.
Notava o cavalo dele mancando, as janelas sempre fechadas, o rádio que parou de tocar moda de viola. Notava que os caminhões de leite já não paravam ali, e que ele não cortava mais lenha como antes.
Certa tarde, enquanto varria a varanda, viu os bois de Agenor soltos no pasto dela, devorando o capim recém-plantado. Respirou fundo. Pensou em gritar. Mas algo a deteve.
No dia seguinte, bem cedo, ela mesma abriu a porteira e empurrou o resto do rebanho para o lado de lá.
E deixou, pendurado na cerca, um saco com pão de queijo e uma bilha de café quente. Não escreveu nada. Nem assinou.
Dois dias depois, encontrou a bilha de volta. Limpa. E dentro, um pequeno maço de folhas de boldo, amarradas com barbante.
Iolanda entendeu o gesto: ele sabia que ela tinha problemas de estômago.
Começou ali.
Uma troca silenciosa de coisas pequenas: ovos, doce de leite, mudas de alecrim. Nunca se falavam, mas a cerca deixou de ser muralha e virou apoio.
Até que numa noite de tempestade, a luz caiu nos dois sítios.
Iolanda olhava a chuva pela janela quando ouviu um barulho na varanda. Era Agenor. Molhado até os ossos, com um lampião na mão.
— Vi que a luz apagou e... me preocupei. — disse, meio sem jeito, encarando os próprios sapatos.
Ela olhou pra ele como se olhasse outra pessoa. E respondeu:
— Entra, homem. Senão pega uma pneumonia e vai me dar trabalho.
Tomaram café morno à luz do lampião. Conversaram sobre o tempo, as vacas, os filhos que moravam longe demais. Ele tocou no braço dela, de leve, ao se despedir. E ela não recuou.
Depois disso, passou a visitá-la aos sábados.
Chegava com queijo fresco e saía com bolo de fubá. Não falavam de sentimentos. Mas sentavam-se lado a lado na varanda, em silêncio, como quem entende que a companhia certa não precisa de explicações.
Um ano depois, um novo portão de madeira foi construído no meio da cerca. Sem alarde. Sem anúncio.
E foi por ali, por aquele vão de madeira envelhecida, que dois corações velhos, mas ainda dispostos, aprenderam que o tempo nunca é tarde quando a alma ainda floresce.

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