Denise Galvão
Na escola, tudo era pressa. O sinal tocava, os alunos corriam, os professores entravam às pressas com pilhas de cadernos debaixo do braço. Mas havia uma exceção: a professora Lívia.
Ela sempre chegava antes de todos, abria as janelas da sala e ficava ali, parada, olhando o pátio vazio. Não havia barulho de crianças, nem risadas, apenas o vento atravessando as árvores e a luz da manhã entrando devagar. Para nós, parecia apenas um hábito. Para ela, era um ritual.
Um dia, cheguei cedo por acaso. Minha mãe tinha médico e me deixou mais de meia hora antes do horário. Entrei na escola silenciosa e encontrei Lívia diante da janela. Ela não se assustou com a minha presença. Apenas virou o rosto e sorriu, como se já esperasse que alguém a descobrisse.
— É nesse momento que eu penso em cada um de vocês — disse. — Imagino o que precisam hoje: quem vai precisar de coragem, quem vai precisar de silêncio, quem vai precisar de um olhar de incentivo.
Fiquei parado, sem saber o que responder. Para mim, até então, era só uma janela aberta. Para ela, era a forma de preparar o coração antes de dar aula.
Nos dias seguintes, comecei a reparar mais nela. Descobri que não era coincidência: Lívia parecia mesmo prever as coisas.
Quando Mariana entrou chorando, depois de brigar em casa, ela a chamou discretamente para apagar o quadro — só para dar um motivo de se levantar e respirar.
Quando Rafael errou uma questão fácil, em vez de corrigi-lo na frente de todos, deixou um bilhete dobrado sobre sua mesa: “Errar é só um ensaio do acerto.”
Eu mesmo, que vivia escondido no fundo da sala, percebi seu olhar pousar em mim mais de uma vez.
Nunca me pressionava a responder, mas sorria quando via meu caderno cheio de rabiscos. Um dia, disse:
— Lucas, você escreve muito. Não esconda isso do mundo.
Aquilo ficou gravado em mim como uma marca invisível.
Com o tempo, fui entendendo: a janela era mais do que um pedaço de vidro e madeira. Era o espaço onde ela se lembrava de que os alunos não eram apenas números na chamada, nem provas para corrigir.
Cada um de nós trazia um universo inteiro para dentro daquela sala, e ela se preparava para nos receber.
No fim do ano, quando tivemos a última aula, cheguei cedo de propósito. Queria vê-la na janela mais uma vez. E lá estava ela, olhando o pátio, com os olhos marejados pela despedida que se aproximava.
Aproximei-me e disse:
— Professora… e hoje? O que acha que eu preciso?
Ela demorou um instante, respirou fundo e respondeu:
— Hoje você precisa acreditar que já carrega dentro de si tudo o que eu tentei ensinar. Não só fórmulas, mas também a coragem de ver os outros.
Naquele instante, percebi:
as lições mais importantes não estavam nos livros, mas naquele olhar silencioso diante da janela.
E desde então, cada vez que abro uma janela pela manhã, lembro-me dela.
E tento, do meu jeito, também enxergar além
— porque ensinar, descobri, é aprender a ver as pessoas antes mesmo de ouvi-las falar.

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