sábado, 29 de maio de 2010

Paulo Coelho - Três Histórias sufi



Um conto - uma crônica

O turbante de Nasrudin

Nasrudin apareceu na corte com um magnifico turbante, pedindo dinheiro para caridade.

- Você veio me pedir dinheiro, e está usando um ornamento muito caro na cabeça. Quanto custou esta peça extraordinária? - perguntou o soberano.

-Quinhentas moedas de ouro - respondeu o sábio sufi.

O ministro sussurrou: "É mentira. Nenhum turbante custa esta fortuna.

Nasrudin insistiu:

-Não vim aqui só para pedir, vim também para negociar. Paguei tanto dinheiro pelo turbante, porque sabia que, em todo o mundo, apenas um soberano seria capaz de comprá-lo por seiscentas moedas, para que eu pudesse dar o lucro aos pobres.

O sultão, lisonjeado, pagou o que Nasrudin pedia.

Na saída, o sábio comentou com o ministro:

-Você pode conhecer muito bem o valor de um turbante, mas sou eu quem conhece até onde a vaidade pode levar um homem.


Aceitando a compaixão


-Como purificamos o mundo? - perguntou um discípulo.

Ibn al-Husayn respondeu:

-Havia um sheik em Damasco chamado Abu Musa al-Qumasi. Todos o honravam por causa de sua sabedoria, mas ninguém sabia se era um homem bom.

"Certa tarde, um defeito de construção fez com que desabasse a casa onde o sheik vivia com a sua mulher.

Os vizinhos, desesperados, começaram a cavar as ruínas; em dado momento, conseguiram localizar a esposa do sheik".

Ela disse: !Deixem-me. Salvem primeiro o meu marido, que estava sentado mais ou menos ali".

"Os vizinhos removeram os destroços no lugar indicado, e encontraram o sheik.

Este disse: Deixem-me. Salvem primeiro a minha mulher, que estava deitada mais ou menos ali".

"Quando alguém age como agiu este casal, está purificando o mundo inteiro".
Igual ao Casamento

Nadia passou o outono inteiro semeando e preparando seu jardim. As flores se abriram na primavera - e Nadia reparou alguns dentes-de-leão, que não havia plantado.

Nadia arrancou-os. Mas o pólen já estava espalhado, e outros tornaram a crescer. Ele procurou um veneno que atingisse apenas os dentes-de-leão. Um técnico disse-lhe que qualquer veneno ia terminar matando as outras flores. Deseperado, pediu ajuda a um jardineiro.

- É igual ao casamento - comentou o jardineiro.Junto com coisas boas, terminam sempre vindo algumas poucas inconveniências.

=- Que faço?

- Nada. Mesmo sendo flores que você não planejou ter, fazem parte do jardim.


Paulo Coelho
Escritor e letrista.

Publicada no Jornal Correio da Paraíba.
Caderno Milenium.

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