
Um conto - uma crônica
Muito já se disse: toda luz se apaga. E se disse com razão, havendo até algo de divino na assertiva.
Neste norte, uma voz de experiência já me confidenciou. Deus, quando permitiu a existência da luz, também logo tratou de dar um jeito de ela se apagar no tempo certo- seja qual for essa luz.
Sendo tal verdadeiro, como acredito que seja, então a Humanidade deveria entender que este ciclo - a luz que se acende também um dia se apaga - serve de exemplo para nos mostrar que nada é eterno entre o céu e a terra.
Apenas e somente Ele, Deus.
Prestando bem atenção às coisas da Natureza e, também, até a algumas coisas que resultaram do poder de criação do Homem, logo se percebe que toda luz realmente se apaga.
Por exemplo:
O Sol, por Deus escolhido como o astro-rei, despede todos os dias, por permissão divina, a escura madrugada e com sua luz clareia o Mundo; mas, já ao cair da tarde, caminha lentamente para o descanso noturno, abrindo espaço para outras noites, ora tão escuras, ora como certa claridade, em virtude, agora, do brilho de outras luzes:a das estrelas e também a da Lua.
É como se Deus, com a chegada da noite, desligasse o interruptor: e no amanhecer de um novo dia, religasse o mesmo interruptor. Mas Deus também permitiu que os raios cortassem os céus e, atingindo a madeira da árvore, produzissem o fogo, e dele surgisse outro tipo de luz, resultante do clarão das chamas.
Todavia, Ele cuidou também de demonstrar que a luz decorrente do fogo uma hora se apaga, seja por água, seja por outra ação físico-química.
O Homem, por sua vez, criou algumas luzes. Ao inventar a lamparina, buscou produzir uma luz artificial, que se apaga concomitantemente ao acabar-se o querosene. Ao inventar a vela de acender, buscou o Homem produzir outra luz que , sem dúvida, também se apaga, ao se queimar totalmente a derradeira porção de seu pavio. Até a luz elétrica tem seu ciclo de luminosidade, precisando ser renovada sempre.
Pobre Homens-Deuses, com o poder nas mãos: inventam e reinventam luzes. Acreditam que a claridade decorrente dos holofotes dos cargos que ocupam os deixa mais luminosos e, até quem sabe, eternos.
Com isso, casam, batizam, prendem, soltam, perseguem, tiram placas, botam outras, transferem servidores, viram o rosto para a gratidão, abraçam bajuladores, se irritam com a advertência do amigo, deslizam na prepotência e se olham no espelho da vaidade acreditando que o Mundo nunca gira e que sua luz não se apaga.
Ora, se a luz do astro-rei, numa rotina divina, se apaga e se acende inelutavelmente todos os dias, então o que dizer da luz do poder?
Um dia, o Homem há de compeender que não é eterno e, por isso, seja qual for seu mister, deve sempre carregar consigo a luz da mão estendida, da humildade, da solidariedade,- pois essa é a luz que verdadeiramente advém de Deus e nunca se apaga.
Onaldo Queiroga
Escritor e Juiz de Direito.Publicada no Jornal Correio da Paraíba.
Coluna: Opinião
Edição de sábado.
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