sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Emerson Barros De Aguiar - Saber Avaliar



Um conto - uma crônica

Um conhecido estudava química numa universidade.

Certo dia, caminhando pelo Campus, encontrou uma pulseira caída no chão. Apanhou e viu que não possuía qualquer tipo de identificação. A peça era dourada e pesava, o que indicava que, se fosse de ouro, deveria ter um bom preço.

Ele se lembrou, então, de um de seus professores, um indiano, que pertencia a uma antiga família de ourives. A lembrança foi perfeita, pois, além de possuir conhecimento sobre metais valiosos, o professor também era uma pessoa da sua inteira confiança.

Ao encontrar o professor indiano, ele tirou do bolso a peça e perguntou:" Isto tem algum valor?" O professor olhou para a "jóia" e disse: "Não, isto não tem valor nenhum".

Embora confiasse na opinião do professor, resolveu consultar um outro especialista antes de se desfazer da pulseira, e, para a sua surpresa. a pessoa lhe informou que o objeto era de ouro maciço.

Ele se recordou das palavras do professor indiano: "Isto não tem nenhum valor" O professor, evidentemente, sabia que a pulseira era de ouro, mas nem por isso a considerou como algo valioso.

Aquele que é levado pelo valor superficial de objetos e situações deixa de contemplar os verdadeiros tesouros da vida.

Não costumamos reconhecer uma lufada de ar como sendo algo importante, muito menos como algo de valor, mas, para alguém que não consegue respirar direito, um minuto de boa respiração vale mais do que uma tonelada de ouro.

"Tesouro" é apenas o lugar onde depositamos o nosso coração. Se o depositamos numa conta bancária, ela passa a valer para nós, não porque valha por si mesma, mas porque vinculamos a ela a nossa alma. por isso o ávaro se apega às suas riquezas como se estivesse defendendo o seu próprio coração. Ele acredita que, se alguém roubar o seu dinheiro, está também arrancando o coração do seu peito. Gasta tanta energia com o seu delírio que não consegue ser mais generoso consigo mesmo nem com os outros.

Quem persegue o pote de ouro na ponta do arco-íris, não percebe a inutilidade da sua busca e nem a beleza do arco-íris.

Saber discernir o que liberta do que escraviza a alma é uma grande prova de sabedoria. Aquele que se depara com os valores eternos do coração, descobre que Deus não propicia os bens materiais ao homem tão somente para que ele se contente em manter seu próprio corpo, mas para que ele trabalhe pelo esclarecimento de sua alma e em favor de si mesmo, assim como dos outros. O grande triunfo do homem é a vitória sobre a tirania dos sentidos, e isso se dá na medida em que não buscamos, em primeiro lugar, os valores materiais e as sensações físicas.

O desapego é a grande conquista da alma, pois só aquele que tem um coração simples é capaz de ver corretamente. Quem se despiu do orgulho e do egoísmo e não está interessado unicamente em si mesmo, sabe reconhecer um valor perene.

Tanto os tesouros espirituais quanto os materiais só se apresentam aos que já urgiram o próprio coração com os mais puros sentimentos. Do contrário não haveria proveito em encontrá-los.O dinheiro não é ruim em si mesmo e nem a verdadeira humildade consiste num pauperismo. Aliás, a respeito disso, existe um provérbio italiano que diz: " se a riqueza não traz felicidade, imagine a pobreza!". porém, para nos habilitarmos à prosperidade plena, precisamos buscar em primeiro lugar o Reino de Deus. Isto é, as virtudes e não os seus "acrescimos".

O bem mais valioso que o sábio deseja possuir é não querer aquilo que atrapalhe o seu crescimento espiritual. O caminho perfeito é constituído de valores perfeitos. A descoberta desses valores nos dá também o sentido correto de nossa existência.

A humildade, a bondade, o amor e a paciência são os tesouros mais belos que alguém pode desejar. Sendo capaz de valorizá-los, o indivíduo vai enchendo, pouco a pouco, a arca de sua felicidade...


Emerson Barros de Aguiar.
Escritor e filósofo.

Publicada no Jornal O Norte.

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