Um conto - uma crônica
Este poema de Judas Isgorogota nos faz meditar sobre a natureza do verdadeiro heroísmo:
"Papai, o que é um herói?
Eu pergunto porque tenho grande vontade
De ser herói também...
Será que posso ser herói sem entrar numa guerra?
Será que posso ser herói sem odiar os homens
E sem matar alguém?"
O homem que já sofrera as mais fundas angústias
E as mais feias misérias
Trabalhando a aridez de uma terra infecunda
Para que não faltasse o pão no pequeno lar;
O homem que as mais humildes ilusões perdera
No seu cotidiano e ingrato labutar;
Aquele homem, ao ouvir a pergunta do filho
"Papai, o que é um herói?"
Nada soube dizer, nada pôde explicar...
Tomou de uma peneira
E cantando saiu outra vez a semear!
O heroísmo se manifesta em toda parte à nossa volta, e muitas vezes não nos damos conta disso. O cotidiano esconde gestos heróicos, desempenhados por pessoas nobres que, em sua humildade, não fazem alarde sobre si mesmas...
É o mendigo que deu o único pão que possuía, sua refeição do dia, à criança faminta que lhe pediu um pedaço; é o trabalhador explorado que sacrificou seu dia de descanso para ajudar o vizinho a consertar o teto por causa do inverno; é a família quase indigente que divide o escasso alimento com os amigos ainda mais desfavorecidos; é o indivíduo que deixou a casa abastada para se dedicar aos velhinhos doentes, desamparados pelos próprios filhos; é a mulher pobre que não permitiu que a criança órfã fosse relegada à sorte das ruas; é o deficiente físico que, em vez de entregar-se à autopiedade, trabalha pela causa do bem, esclarecendo e ajudando aos que precisam ainda mais do que ele.
Mas poucos entendem o heroísmo. Muitos preferem acreditar que todas as pessoas são más, desonestas, egoístas, falsas, mesquinhas, que o ser humano não merece crédito e que a única coisa que vale a pena é buscar atender aos seus próprios caprichos. Porém, aqueles que pensam assim, embora não confessem, são pessoas muito tristes, solitárias e angustiadas. A vida para elas é uma competição, o seu próximo não é o seu irmão de humanidade, mas o seu inimigo. Estes pobres indivíduos não conhecem o heroísmo. Quando muito, acreditam que ele consiste em alvejar o seu semelhante em campos de batalha, na estupidez da guerra.
Só os puros de coração podem ser heróis, só os totalmente incapazes da prática do mal, ainda que em defesa de si próprios, apenas estes são capazes do verdadeiro heroísmo. Os de alma despojada, os simples, os mansos, os injustiçados, os nobres espíritos incompreendidos pela pequenez dos adoradores de ilusões.
A bondade requer coragem. Não a falsa coragem dos que se igualam às feras famintas, que buscam atender tão somente o ímpeto do próprio apetite. Mas a coragem superior dos santos, dos sábios, dos grandes místicos, que deram o testemunho da busca do reino de Deus, em primeiro lugar, antes de tudo, antes mesmo dos seus próprios interesses. Estes entendem que o reino prometido começa em nós mesmos, no bem que fazemos aos outros, e no maior de todos os combates: a luta contra as nossas próprias disposições egoísticas.
O verdadeiro herói procura merecer o reino que está dentro dele mesmo, encarando a vida sempre com otimismo e alegria, enxergando o lado bom das pessoas, reconhecendo o valor dos que estão à sua volta, dando chance para que os outros cresçam, e sendo bondoso, leal, generoso, humilde e companheiro.
Emerson Barros de Aguiar.
Escritor e filósofo.
Publicada no Jornal O Norte.
quinta-feira, 4 de novembro de 2010
Emerson Barros de Aguiar - Ser Herói
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