Pelo visto, neste país, nem a Natureza obedece às suas próprias leis.
Aí está o inverno, que não me deixa mentir.
Aliás, para me expressar corretamente deveria eu ter dito, aí não está o inverno.
Quem sabe, por astúcia de El Nino, ausentou-se de vez da nossa paisagem urbana, depois de ter arribado dos campos sertanejos e mesmo dos brejos que até um certo tempo atrás deixavam-se inundar do aguaceiro que começava a correr das cabeceiras de março e escorria até à confluência dos meses de julho e agosto com a Festa das Neves.
Destas manhãs terminais de março, abro a janela e já encontro o Sol a aquecer-me os sentidos, as lembranças dos tempos em que meu pai obrigava a sair de capa de gabardina, guarda-chuva de nayon e galochas, como quem ia em formidável expedição rumo ao Colégio.
E não deixava de ser uma aventura.
A cidade lavada de insuspeitadas chuvas, revelava seus mistérios mais recônditos. Às seis da manhã. As casas ainda às escuras tinham de manter as luzes acesas, enquanto se preparavam a rotina da vida retomada ao alvorecer. Eram casa de porta-e-janela dando para a rua por onde nos esgueirávamos - eu e a chuva - cada qual com o seu mister. Eu a espreitar o interior visível das casas renascendo a cada manhã povoada de lindas mulheres que acabavam de se mudar para a minha rua; a chuva cobrindo os meus passos de sonhos que se desfaziam na enxurrada dos anos que haviam de descer junto comigo ladeira abaixo...
E lá ia eu, embrulhado na minha capa de gabardina. Eu e o meu destino, incapazes de descer a rua cantando na chuva.
E se eu tivesse de refazer o mesmo caminho, sem capa e sem guarda-chuva, desprotegido de tudo contra o mau tempo que faz na vida, depois de todos estes anos, afinal, que tipo de risco haveria de correr? É certo que o meu pai já não está por aqui para me reter à porta da rua com seus cuidados.
- Está levando a capa? E o guarda-chuva?
Não, já não levo capa, nem guarda-chuva. Também na vida, já não tenho mais precisão de uma coisa nem outra.
Até porque já nem chove mais sobre a vida que a gente leva rua abaixo, rua acima...
Guarda-chuva para quê?!
Só os chatos de todo gênero ainda andam de galochas. Ou será que também não andam mais?
Da minha janela, pois, a vista é seca e urbanamente árida, como acontece com qualquer cidade deste planeta água. Desconfio até que foram os homens que secaram, depois que murchou a última planta. E foram secando também as casas que um dia fizeram desabrochar diante da minha adolescência lindas mulheres que se espreguiçavam languidamente emolduradas por janelas perante as quais eu escorria junto com a chuva de todas as manhãs.
Os edifícios de apartamentos guardam pessoas tão diferentes. Como se cada uma delas fosse obrigada a deixar lá embaixo com o porteiro os sentimentos que só se cultivam em casas de porta-e-janela, feito vasos de gerânios que já não se usam mais.
Como se as pessoas que habitam esses abrigos de aço, de concreto e vidro brindado tivessem que despir nas casamatas da portaria sentimentos assim antigos, como galochas velhas que já não se usam mais.
Luiz Augusto Crispim.
Escritor, jornalista e advogado.
A Dama da Tarde.
Página 88 , 89 e 90.
quinta-feira, 4 de novembro de 2010
Luiz Augusto Crispim - Eu E A Chuva
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