Tinha eu 10, 11 anos, e muita vontade de ir ao circo, de que ouvia falar com inveja nas rodas que se formavam em frente à bodega do meu pai, na esquina da Rua da Concórdia com a Vasco da Gama, em Jaguaribe. Ali eu ficava babando quando os meninos mais velhos deitavam falação, narrando as suas aventuras amorosas, muitas das quais certamente só existiam na imaginação deles, mas a minha atenção era bem maior quando eles se referiam aos circos a que já tinham assistido, principalmente quando descreviam os lances mais ousados dos trapezistas ou dos tratadores de leões que chegavam a botar a cabeça inteirinha na boca do chamado "rei dos animais".
Como a entrada do circo era cara e o dinheiro curto, a gente ficava à espera de que a situação melhorasse e se pudesse ir ao circo - nem que fosse pro "poleiro".
E, eis que um dia, por obra e graça do Poder do Divino Espírito Santo ( minha tia beata assim explicou o fato), a oportunidade chegou para que não somente eu, mas todos os irmãos menores fôssemos pegados na mão de "Seu Benedito", para o famoso Circo Garcia que estava armado ali na praça Castro Pinto, no fim da Vasco da Gama. E, melhor, fomos para cadeiras numeradas, bem pertinho do picadeiro - os lugares mais caros da plateia e, por oportuno, preciso contar o milagre.
Ocorre que meu pai era funcionário da Biblioteca Pública do Estado e, nesse tempo, a biblioteca era ligada à Casa Civil do Governador. Naquela época - como acontece ainda hoje - os donos dos circos mandavam convites para o governador e para alguns secretários de estado e, normalmente, as autoridades maiores lá não compareciam. Não sei por qual via, mas o certo é que um desses convites foi parar em nossas mãos e lá fomos todos com a melhor roupa e o maior sorriso, assistir (no meu caso) a um espetáculo circense - pela primeira vez.
Não lembro bem dos detalhes, sei somente que era uma matinê e que fazia uma quentura danada debaixo daquela enorme lona que cobria todo o prestígio do grande Circo Garcia. Cansei de sorrir com os palhaços, suar as mãos com o perigo a que se expunham os trapezistas e vibrar com os mágicos - para mim sempre o melhor dos circos.
Gostei muito da minha primeira ida ao circo, daí porque nunca esqueci aquele evento que, na minha memória, ficou marcado também como "o dia da pomada de cacau".
É que uma tremenda dor de dente me atazanava o juízo - um dos molares estava bastante inchado. Pra não deixar de ir ao circo, minha mãe passou pomada de cacau e me deu um tablete inteiro para eu usar durante o espetáculo. O circo estava tão interessante e tamanha era a minha atenção com o show, que esqueci completamente a pomada no bolso da minha camisa nova de nylon.
Resultado: voltei pra casa vibrando com o circo e com a camisa colada no peito, efeito da pomada de cacau que, com o calor, derreteu e se espalhou para todos os lados...
E nunca mais deixei de lembrar a minha primeira vez no circo.
Carlos Pereira
Jornalista, escritor, engenheiro e
professor universitário
Publicada no jornal A União.
Edição 16/05/2009
segunda-feira, 30 de maio de 2011
Carlos Pereira - O Circo E A Pomada De Cacau
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