domingo, 14 de agosto de 2016

Carlos Pereira - O Judas De Jaguaribe


um conto - uma crônica

Para tentar responder a alguns amigos como era a malhação de judas em Jaguaribe, nos meus tempos de criança/adolescente, fui buscar no baú do quase esquecimento, algo que já amarelado pelo tempo - escrevi há mais de dez anos. Eis o que à minha maneira, era a Semana Santa daquela época e como descrevi a malhação de judas em Jaguaribe.
"... A primeira missa da Páscoa, era celebrada à meia-noite do sábado de aleluia, com intensa participação dos católicos do bairro que enchiam a igreja do Rosário e até o adro externo, para cantar e louvar o Senhor ressuscitado.

Enquanto isso, ali bem perto - no que se chamava de vila dos motoristas - se preparava a malhação do judas, um espetáculo que começou naquele tempo e que, ainda hoje, se constitui um evento que atrai muita gente.

A preparação era feita pelos moradores do logradouro, constituido principalmente pelas poucas casas recém-construidas na praça que hoje é conhecida por ficar perto do Tribunal de Contas do Estado. Tudo era feito com cuidado e somente na última hora se sabia quem era o judas a ser malhado naquele ano.

O boneco era confeccionado de pano, de corpo inteiro e o cuidado maior se concentrava no rosto do judas, geralmente representando uma figura rejeitada pela sociedade local ou ainda um político derrotado nas urnas ou um vulto nacional exercrado pela população. O certo é que uma verdadeira multidão saia da missa do Rosário em direção à vila dos motoristas e a malhação que começava de madrugada ia até o sol esquentar, tempo suficiente para o judas ser inteiramente desfigurado, tanto eram os apupos e pontapés que recebia naquela hora em que todos, indistintamente queriam se vingar do que Iscariotes tinha aprontado com Cristo.

E o lugar se transformava numa festa, onde não faltavam os vendedores de rolete, de caldo de cana e até de empadas deliciosas que a gente consumia com boas doses de guaraná Sanhauá, antes da retirada geral, por volta do meio-dia de domingo, a fim de esperar pelo almoço da Páscoa, servido em família, com direito até a uma taça de vinho Imperial. E, lembro bem,naquele tempo ainda não havia os chamados ovos de páscoa e nós crianças do bairro, nos contentamos com a festa do judas, o judas de Jaguaribe em que alguns bombons de caramelos eram recolhidos, após a malhação.
Carlos Pereira
Jornalista, escritor, engenheiro e
professor universitário

Publicada no jornal A União.

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