quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Luiz Augusto Crispim - Calendas De Mim


um conto-um,a crônica
Caíram as folhas nos jardins, e na folhinha da sala o ano já começa a descorar. Será mais um ano sem frutos, por certo. Poucas chuvas, quem sabe, e as pragas de sempre. Passado o inverno, em brancas nuvens passado, como de resto a vida inteira que passa, coberta de um cinza outonal, sem grandes esperanças de primavera.

A janela aberta para as quatro estações que passam indiferentes ao mundo estacionário cá dentro. E, no entanto, muita coisa mudou. O domingo no parque, como na canção. O ar carregado do cheiro de eucalipto e do canto das cigarras. Quase tudo transformado em sintético.

Nos jornais, os homens festejam os anos do pós-guerra, sem qualquer garantia de paz, convencidos de que podem praticar seus crimes hediondos como quem promete liquidações, seus genocídios periódicos, em módicas parcelas universais.

E o aeroporto trocou os Constelations do passado pelos jatos puros do Terceiro Milênio que gravitam pelos espaços interestelares da nossa imaginação, pousando suavemente no meio das hortaliças e dos pomares de Santa Rita, trazendo candidatos canonizados do Rio de Janeiro pelas asas fantásticas da Panair.

O aeroporto é o mesmo que via chegar nos bolsos dos paletós canetas esferográficas compradas no Largo do Machado, sonhos frustrados em Cascadura, virgindades recuperadas em clínicas do Botafogo, falsos brilhantes adquiridos na Rua da Alfândega e o ar vagamente blue, copiado dos frequentadores da Confeitaria Colombo.

Foi tudo tão rápido. O calendário despojado das folhas como as árvores em permanente estado de outono. Ficou a praia no vai-e-vem das ondas que são apenas a versão indecisa da vida, sitiada entre as origens e a morte pura, insossa à beira-mar.

Tudo tão quieto que a cidade parecia encantada. Refúgio de algum duende imaginoso, que se misturou conosco e aqui fez morada, quem sabe, fugindo de um amor fracassado nas regiões em que amam os duendos.

Porém os anos passaram como os alísios que roçam os taludes e as colinas da praia, as hastes dos gerânios dobraram sob o vento tardio da madrugada que encapela as vagas e desencanta as cidades mágicas da infância. E na manhã de um certo dia, em vez de odores almiscarados do alvorecer, das conchas e dos sargaços de tempos imemoriais, surgiram na areia os primeiros sinais de realidade, pois tudo aquilo que naufragara ao largo acabou sendo atirado para a terra, que passou a ser menos firme agora.

E afinal, não é bem pelo tempo que passou na janela. É somente pelos anos que ficaram retidos sobre estes móveis, junto com a poeira das crenças mais remotas e das lembranças mais desbotadas que agora rasgo as primeiras folhinhas do outono.

Luiz Augusto Crispim.
Escritor, jornalista e advogado.

A Dama da Tarde.
Página 17 e 18.

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