quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Luiz Augusto Crispim - A Cara Da Cidade


Pode ser que o amigo leitor ainda não tenha percebido certas mudanças operadas nesta amada cidade.Mudou a paisagem das ruas, é certo, assim como também mudaram as linhas das casas, o perfil das ruas desenhado em concreto, o recado dos muros garatujados com a mensagem dos grafiteiros deseducados pelo design do besteirol geral. Mudou, sim.

Mas reparando bem a fisionomia da cidade, a gente percebe que ela continua sendo a mesma das fotografias de Walfredo Rodrigues. A mesma que aparece no flagrante de Parreira, mostrando Peregrino de Carvalho no papel principal de herói-menino da consciência nacional.

As avenidas estão cheias de carros importados, as pessoas compram roupas novas, os edifícios mostram caras de Primeiro Mundo, mas a índole amolengada da pequenina Felipéia , é a mesma.

Não dá para notar?

Menos do que uma questão de aparência, quero mostrar o jeito de fazer as coisas da cidade, que me parece absolutamente o mesmo de 1585.

O que fazem os filhos de Nossa Senhora das Neves do alto desta colina abençoada por São Francisco, a filha de São Bento, crismada por São Pedro Gonçalves à beira do mangue do Sanhauá?

Nada.

Não tomem como desrespeito, que não é. Amo a cidade como qualquer filho da terra. Mas não posso dizer que sei da vocação do lugar.

Se pedirem a carteira de identidade da velha Parahyba, como certeza ela pedirá desculpas e provavelmente dirá que a esqueceu em casa. Qualquer cidade tem a sua. De Arapiraca, vendendo fumo de rolo na feira, a São Paulo vendendo de tudo no mundo.

João Pessoa vende contracheque de repartição pública. Em cada esquina você pode encontrar um agente administrativo livre do ponto, um assistente de gabinete de licença médica, um assessor especial retido na fonte...

Deve ser assim desde Martim Leitão.

Quer dizer : não mudou até aqui, nunca vai mudar. Pode crer.

Do alto daquele campanário de Nossa Senhora das Neves, você olha para o nascente e avista o verde a caminho do mar e da preguiça. Ao poente, o verde e a preguiça já se deitam juntos num só abraço, aproveitando a palha da cana.

Quem pode dar jeito nisso? Só a história, por certo, essa velha professora de palmatória na mão. Mas, como na escola moderna já não existem mais professoras desse modelo, na vida já não se faz mais histórias como antigamente...

É por isso que a cidade não me parece mudada.

E não tem cara de que tão cedo vai mudar, pode crer.

Luiz Augusto Crispim.
Escritor, jornalista e advogado.

A Dama da Tarde.
Página 19 e 20.

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