Chuvas com vontade de ficar estas que cruzaram a fronteira do século, alagando as férias dos meninos empoçando quase todo o nosso verão.
Difícil a previsão do tempo que há de fazer sobre as nossas vidas daqui por diante. Nem no regime de chuvas se pode mais confiar?
Ora, direis, ouvir a chuva - como se faria a uma entidade oracular?
E por que não? Sim, porque as chuvas é que fazem o curso do nosso viver. Delas existem que só servem de pretexto para açoitar amores na cama, mantendo-os na cama mantendo-os homiziados debaixo dos lençóis, até o meio-dia, enquanto a biqueira canta seus estribilhos invernais.
São muitas as formas de chover nos roçados da vida.
Tempos confiáveis eram aqueles, em que as águas de março marcejavam de verdade marejando a folhinha e nunca falhavam no horizonte.
Chuvas alcoviteiras, dessas de ciciar cumplicidades com o vento insidioso, vento voyeur, obsceno, a infiltrar-se pelos postigos e venezianas cerradas.
Outras, abrandadas pelo dorso de uma viração qualquer, são mais de assediar as vidraças e acometer a fantasia das pessoas, em arabescos intraduzíveis sobre a superfície do vidro, que deixa passar a luminosidade dos amores que ficaram lá fora. Tamborilar de chuva para ser ouvido ao cair da tarde, se possível em contraponto ao Bolero de Tavel.
Seja lá como for, chuvas de janeiro não convencem a ninguém.
São águas de pouco ou nenhum convencimento. Sempre volúveis como todos os amores de verão...
As tormentas de março merecem mais confiança. São elas que inspiram os poetas de almas lavadas, como Paulo Mendes Campos, assinando versos assim:
"No azul do azul
Lavado das chuvas..."
É nos azuis assim que as chuvas fazem morada.
Tomo o chuviscar destes dias inaugurais do ano como tímidos ensaios das nuvens com vontade de chorar. Devem ter lá os seus motivos, já que presenciam tanta coisa do alto de suas jornadas por esses caminhos estrelados.
Deste meu canto de praia, fico a esperar pelas chuvas de verdade, aquelas que encharcam as saudades e os desejos. Chuvas de molhar os sentimentos.
Luiz Augusto Crispim.
Escritor, jornalista e advogado.
A Dama da Tarde.
Página 15 e 16.
quarta-feira, 7 de novembro de 2012
Luiz Augusto Crispim -Chuvas Das Almas
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