terça-feira, 31 de maio de 2011

Onélia Queiroga -A Cadeira


um conto - uma crônica


Sentada na cadeira de palhinha da grande mesa retangular, Lea observava o ambiente, com o pensamento voltado ao passado. Os tempos idos faziam parte de sua vida; de uma vida plena de alegria e de felicidde.

Olhava,atentamente, ao seu redor. Via as figuras dos genitores, dos irmãos, da criadagem. O casarão era por demais frequentado, sendo, por isso, comparado a uma repartição pública, embora, na sua essência, nunca tivesse sido destinado a essa finalidade.

Nas suas paredes, jamais faltavam quadros do Senhor e dos Santos da devoção dos seus donos. O enorme coração de Jesus afixado sempre o fora na parede mais elevada. Impunha-se a todos pela delicadeza dos traços e pela auréola divina ao redor de sua cabeça, o que lhe realçava os grandes cabelos caídos sobre os ombros.Persignar-se, diante do Cristo, era ato de fé de todos.

A santa protetora era Nossa Senhora de Fátima. Os Santos Antônio e Francisco de Assis, espalhados em outros vãos, para proteger e guardar o casarão e os seus habitantes. A proteção fora garantida, bem como o sustento e a manutenção da família, aliadas à diligência e trabalhos dos donos do casarão.

Houve um interregno em que ficou fechado, em silêncio de demorada solidão. Aguardava um novo destino ou a preservação do domínio pelos descendentes, na ausência definitiva dos genitores. A espera valeu. Um deles, agarrou-se à tradição, abriu portas e janelas e a luz voltou a iluminar o interior do casarão.

De cadeira de palhinha, Lea mirava o terraço, ornado por quatro cadeiras de balanço modernas. Algo, porém, chamou-lhe a atenção: apenas uma delas movimentava-se, para a frente e para trás, num balanço cadenciado. As outras permaneciam inertes.

Ficou um tempão observando aquele fenômeno. Se ventava, por que somente a que ficava do lado esquerdo e junto da porta de entrada balançava, com tanta energia rítmica? A energia da cadeira transferiu-se para o seu estado d'alma. Sentiu-se reconfortada com o anúncio feito à sua pessoa, através do objeto. É que, no mesmo lugar, o pai sentava-se, todas as noites, para o balanceio na cadeira e para as conversas amenas, mesmo sendo homem de pouca prosa.

Lea sentiu-se feliz, ao captar aquela mensagem. Ficou a olhar a cadeira, até que inerte esta ficou

Onélia Queiroga.
Escritora e Professora de Ciências Jurídicas
da Faculdade de Direito da UFPB.

Publicada no Jornal Correio da Paraíba
Coluna: Aos domingos.
Caderno: Cultura/Lazer.
Edição de 29/05/2011.

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