quinta-feira, 23 de junho de 2011

Onaldo Queiroga - O Lixo E O Luxo

um conto - uma crônica

Sabemos que o lixo é tudo o que não presta e que se joga fora; o luxo, por sua vez, é o modo de vida caracterizado por grandes despesas supérfluas e pelo gosto da ostentação e do prazer. Hodiernamente, o dinheiro utilizado para alimentar as legiões de famintos existentes no planeta terra. No entanto, as vaidades, as futilidades e as frivolidades muitas vezes obscurecem a personalidade do ser humano.

São dois mundos paradoxalmente distintos: de um lado, o luxo; do outro, o "lixo". Em muitos casos, os limites desses dois mundos são tão próximos fisicamente que desenham quadros indelevelmente chocantes.

Não é preciso ir muito longe para se enxergar esse quadro dantesco.Recentemente, na cidade de São Paulo, foi inaugurado um Shopping Center somente para atender os altos empresários daquela metrópole. Para se ter uma idéia do porte desse empreendimento, nem a imprensa televisiva teve acesso ao evento de inauguração.

O programa "Domingo Espetacular". apresentado pela Rede Record no último dia cinco, veiculou matéria mostrando esse quadro antagônico, no momento da chegada dos convidados para a inauguração. Pasmem! Segundo a matéria, uma garrafa térmica para café custa (a mais barata) cerca de um mil e quinhentos reais.Uma calcinha, em média, custa mais de um mil reais.

O muro que guarnece o citado empreendimento, com altura descomunal, separa o luxo, a luxúria e a futilidade do "lixo", da miséria e da fome que se encontram do outro lado, precisamente na determinada favela Coliseu. O certo é que o preço da garrafa térmica de café daria para matar a fome de muitos moradores da favela, e o valor da calçinha serviria para vestir muitos outros moradores do outro lado do muro.

Não só na lente da câmera da TV Record, mas também na consciência de qualquer ser humano, fica a imagem de que esse muro pode até separar o luxo do lixo. Todavia, é importante dizer que, na ótica de Deus, suas bênçãos são sempre lançadas indistintamente, apesar de o homem buscar, continuamente, a política de segregação.

Àqueles que transitam do lado do muro onde reside o luxo não custa lembrar esta bela frase: "Se a vida nos desse ao mesmo tempo tudo o que desejamos, como riqueza, poder e amigos, mais cedo ou mais tarde, acabaríamos cansados disso; mas existe uma coisa que jamais nos cansa: a felicidade em si" (Paramahansa Yogananda).

Já àqueles que sobrevivem do outro lado do muro, onde reside o "lixo", seres humanos dignos e trabalhadores, lembrarmos que "todas as criaturas nascem na glória, na glória se mantém e na glória voltam a desaparecer" (Vedas).

Onaldo Queiroga
Escritor e Juiz de Direito.

Monólogos do Meu Tempo.
Páginas 48, 49 , 50 e 51.

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