Onélia Queiroga - O Velho
um conto - uma crônica
O caminhar era lento. Aos troncos e barrancos, conseguia alcançar a cadeira de balanço, onde se sentava, para as pernas balançar. Há muitos anos, adquirira esse hábito salutar ao corpo e ao espírito.
Nessa posição, punha-se a divagar, em busca de seus tempos de rapaz folgazão. Tudo era tão bom e prazeroso! A vida não passava de uma imensa festa, a encher-lhe a mente de possíveis conquistas, voltadas a um comportamento geral de respeito pelo próximo e por seus direitos.
Curtira a juventude, acreditando-a eterna. Não se deixava, à época, abater por momentos tristonhos. Qual valsa alegre, dançava neste rítmo, com toda elegância de um moço vunje e vivaz.
Que fase erncantadora aquela! Fase de espera da maturidade. Não era ruim; nada abalava o seu ânimo. Acreditava em todas as possibilidades de êxito; no amor, na futura profissão, na paz interior.
O tempo dos sonhos e do encantamento estava quase a esgotar-se, assinalado pelas mudanças físicas e psíquicas. E o limite chegara, enfim. Transpô-lo foi o início de uma caminhada cheia de surpresas.
A nova idade trouxe-lhe mudanças, no porte e no pensar. Sem falar, nas exigências e cobranças que lhe foram impostas pela família e pela sociedade. Passara, assim, a protagonizar papéis difíceis e complicados.Até no riso, exigiam-lhe tons da seriedade e do cálculo.
Tornara-se homem feito.Casara-se, muito bem. A prole fora numerosa, enchendo o lar de alegria, a relembrar-lhe os seus tempos de solteiro, na casa dos pais.Sentia-se recompensado, por ter, por meio deles, a reprise de um filme que já lhe pertencera.
No balanço da cadeira, buscava a sua maturidade, agora, na maturidade dos seus descendentes. Sabia que os ciclos da vida repetiam-se para todos os seres humanos. Não de forma integral, para os que eram arrebatados antes que todos aqueles se completassem.
E, se estava, ali, sentado, pensando e revivendo os anos de sua existência, era porque já contava com mais de nove década de vida. Umas foram mais felizes, outras mais sofridas.
Nos dias de glória, agradecera a Deus, por tanto privilégio. Nos dias adversos, pedira ao Senhor forças, para suportar os sofrimentos e muita fé para suplantá-los. E fora atendido. No balanço dos seus dias, alcançara a paz e em paz adormecera.
Onélia Queiroga.
Escritora e Professora de Ciências Jurídicas
da Faculdade de Direito da UFPB.
Publicada no Jornal Correio da Paraíba
Coluna: Aos domingos.
Caderno: Cultura/Lazer.
Edição de 19/06/2011.
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