um conto - uma crônica
É época de São João. As quadrilhas de bairros apresentam-se nas ruas e em educandários que também, têm as suas, num verdadeiro intercâmbio cultural das danças tradicionais dos festejos juninos.
As quadrilhas, embora bem mais estilizadas, sintonizam-se na exibição dos passos e, na indumentária, não lhes faltando o chapéu de palha, com sua fita amarrada no pescoço.
Tive a oportunidade de assistir à programação de algumas delas, ao vivo ou pela televisão. E como mostram intensa afinidade entre os seus pares; harmonia e integração na execução rítmica das rodadas, volteios e passos diversificados que a quadrilha requer!
Nas quadrilhas de bairros, o encontro de amigos e familiares garantia o dia de São João, com muito forró e iguarias feitas por todos os interessados nesso momento de fraternidade e preservação de suas tradições mais amadas.
As fogueiras, igualmente, invadiam as ruas de crepitação e luz. Nelas, as espigas de milho estalavam com sua fagulhas, até o douramento dos seus grãos. Em seguida, vinha o deleite de degustá-las, quentinhas, graças à proteção da palha grossa.
A saudade do São João de outrora invade-me sempre, quando da janela do apartamento, vejo a rua silente, sem viv'alma. É nesse momento que o meu espírito retorna a um tempo que prestigiou a rua e os seus habitantes, com tanta alegria e união fraterna.
Vejo, ainda, o instante de maior prazer e alegria: o de soltar os fogos. Quando pequena, imperavam os chumbinhos, as chuvinhas e os temerosos mijões. Já adulta, olhava, com fascínio, as fogueiras das casas de todas as ruas que morei, no sertão e na capital.Até a última, a Helena Meira Lima, na metrópole, ainda era comum o seu cultivo. Hoje, vejo as ruas desertas, sem fogueiras, sem cidadãos, recolhidos que estão, por medo do ataque de meliantes e drogados.
Sinto uma dor no peito, por isso, e, pela longa espera dos fogos que não vêm, como quero. Mas, que vêm, sob a forma de vingança da natureza, através dos vulcões, das bombas, dos incêndios, das guerras que destroem a terra e exterminam os seu habitantes.
Onélia Queiroga.
Escritora e Professora de Ciências Jurídicas
da Faculdade de Direito da UFPB.
Publicada no Jornal Correio da Paraíba
Coluna: Aos domingos.
Caderno: Cultura/Lazer.
Edição de 26/06/2011.
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