sexta-feira, 24 de junho de 2011

Onaldo Queiroga - Pedra De Amolar

A sabedoria popular demonstra que devemos antes de tudo ouvir os mais velhos. Esses seres humanos já maduros repassam ensinamentos de vida que a juventude não alcança. Só o transcorrer dos tempos permite o amadurecimento necessário para possibilitar a sensatez no enfrentamento de algumas situações que a vida nos impõe. Só assim, poderemos conter o nosso ímpeto, para colhermos, com a paciência dos sábios, os bons frutos da vida.

Numa certa ocasião, ouvi uma voz da experiência dizer que, na maioria das vezes, o homem não consegue reconhecer, com justiça, o valor verdadeiro de cada coisa. Referia-se ao fato de que alguns seres humanos, imbuídos pelo egocentrismo e por uma vaidade vil, se apresentam como praticantes da caridade. Até esbanjam amor ao próximo ou mesmo são vistos como praticantes de heróicos, dignos de elogios. Mas, não conseguem ter a simplicidade de dividir a glóira e as flores com aqueles que o ajudaram a construir a imagem de bom samaritano. É aquela história: você constrói o bolo, depois vem um "artista", coloca uns enfeites e leva a fama. 


Foi com esse pensamento que o poeta popular viu uma cena e percebeu que a faca afiada leva a fama.No entanto, ninguém se lembra de que a eficácia de sua lâmina é resultado de uma boa pedra de amolar. Daquele quartzito ou arenito de cimento silicoso duro, ou outra pedra de características similares, usada para afiar instrumentos cortantes. 

No sertão nordestino, o homem usa essa pedra de amolar para afiar a faca ou mesmo o machado, instrumentos que servem, principalmente, para cortar carne e madeira. Esses instrumentos cortantes recebem elogios pela eficiência no corte, levam os louros, sem contudo, dividir com a pedra de amolar os enaltecimentos recebidos. Isto é justo? Claro que não. 

Certo dia, estava o poeta Zé da Prata, em pé na porta da sua casa, contemplando o seu quintal. Com o olhar da sabedoria popular, logo percebeu que um menino ali estava com uma pedra de amolar afiando uma faca. Feito o serviço, o menino passou a cortar a carne para o churrasco e, vibrante, exclamou: "Isso é que é uma faca boa!"O poeta sorriu e retrucou:" O mérito também é da pedra que com eficiência amolou a faca". Nesse momento, o menino parou e, após refletir por alguns minutos, passou a perceber a importância de cada coisa. Por essa razão, enxergou que, para ser justo, é necessário apontar os valores que realmente cada um possui e não isolá-los em uma só pessoa. 

Não adianta assumirmos as glórias de forma isolada, pois o tempo, senhor de todas as verdades, tratará de trazer ao palco o merecimento de todos que, de alguma maneira, participaram do êxito do evento ou do ato merecedor de aplausos. 
Onaldo Queiroga. 
Escritor e Juiz de Direito. 

Esquina da Vida 
Capítulo II - O Homem e as Esquinas 
Passa o tempo e a história nos mostra que apenas mudam os 
personagens, também flagelados. 
Página 67 e 68.

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