O capítulo final desta saga não poderia ser outro, senão a constatação de quem já é velho e isso não lhe aumenta tanto a preocupação de viver – a não ser os achaques naturais de quem conseguiu passar dos setenta. E é, também, uma exortação aos que passam dos 60 anos e, às vezes, não se dão conta de que isso é a mais pura realidade com a qual podem (e devem) conviver sem maiores resmungos. Vamos lá:
Se você é homem e sentado numa mesa de bar - quando começam a falar de idade - se dá conta de que foi quem primeiro nasceu dentre todos da turma e se os outros já não discutem nem lhe provocam tanto como antes em respeito aos seus cabelos brancos, pode ser que você esteja ficando velho.
Se você levanta de madrugada, mesmo sem querer, porque a sua bexiga está transbordando sem ser de alegria e o seu amigo médico lhe diz que para sua idade isso é absolutamente normal, mas é bom você fazer um exame de próstata, isto é, passar pelo vexame daquele famoso e não bem vindo “toque”, vai ver que você está ficando velho.
Se você, ao sair do carro estacionado numa rampa, já encontra dificuldade para enfrentar o peso da porta que teima em fechar sem que você queira e, ainda mais, de vez em quando bate a cabeça naquela parte do teto, sai tropicando e dizendo que parece que ainda está crescendo, provavelmente você está ficando velho.
Se você, ao ver passar uma morena delgada, bonita, cheirosa, radiante e bela, um corpo escultural, um decote audacioso e uma minissaia de fechar o comércio, não sente mais o sangue ferver e a libido se manifestar mediata ou imediatamente e apenas comenta para seus botões: “já gostei muito disso”, certamente você está ficando velho e depressa demais.
Se você , depois de ir ao banheiro fazer aquela operação mais simples, ouve o maldoso comentário da faxineira, na sala todos reunidos, de que o assento da bacia sanitária estava todo mijado e alguém lhe olha meio desconfiado, reaja com firmeza, diga que não foi você, mostre sua roupa enxuta e os seus pés também e, mais do que isso, jamais permita que lhe chamem de “chuveirinho”, mesmo que seja um apelido carinhoso e de uso limitado às quatro paredes da casa. Ainda que tenha sido você o autor, nunca assuma a paternidade de tal ignomínia.
Se você, aproveitando um direito que é seu, procura a fila dos idosos para ser atendido no banco e enfrenta com coragem e determinação os olhares dos jovens das filas vizinhas, diga alto e bom som que é maravilhoso ter 70 anos e, faça mais, ria daquela amiga velha que está na outra fila querendo ser mocinha e você sabe que ela já passou por sete plásticas e está beirando os setenta. Faça isso tudo mas saiba que você também está ficando velho.
Se você , mesmo sem querer, insiste em interromper a conversa dos seus filhos para dizer, cheio de góga, que “no meu tempo isso era diferente”, além de você estar ficando velho, também está ficando inoportuno e é bom parar com esse costume até porque os jovens também – como você – um dia ficarão velhos, se não morrerem antes.
Se você, após tomar aquele banho quente, com muito cuidado para não escorregar no box, precisa se escorar na parede para enxugar os pés, amigo, não duvide – você está ficando velho.
E se, finalmente, alguém de quem você gosta muito, começa a lhe dizer seguidamente que você não é velho coisa nenhuma e sim um antigo bem conservado, descreia do elogio, agradeça o encômio e diga baixinho, entre dentes, para ninguém ouvir:
- Que bobagem! Velho e antigo, segundo o mestre Aurélio, são a mesma matéria, para não dizer outra coisa...
E é esta, sem tirar nem pôr, a sétima vida de quem já fez setenta e dois anos – como o locutor que vos fala e que se despede, na boa esperança de uma oitava vida que, se acontecer, também será contada no devido tempo...
Carlos Pereira
Jornalista, escritor, engenheiro e
professor universitário
Publicada no site http://www.carlospereira.net.br/
Carlos Pereira
Jornalista, escritor, engenheiro e
professor universitário
Publicada no site http://www.carlospereira.net.br/
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