domingo, 5 de agosto de 2012

Carlos Pereira - Sete Vidas - VI - A Saga Da Construção Dos Estágios





um conto - uma crônica

Este capítulo tem tudo a ver com o meu tempo de engenheiro e administrador de órgãos públicos, funções que desempenhei com relativo êxito durante um bom tempo da minha vida.Lembro, a propósito, como foi a construção dos dois maiores estádios de futebol da Paraíba - o Amigão e o Almeidão - e faço disso a minha sexta vida.

O Presidente Medici, no auge da ditadura militar, gostava muito de futebol: de radinho de pilha ou ouvido, ia ao Maracanã e até recebeu umas batidinhas na barriga por Dario, quando das comemorações da Copa do México. Então se espalhou pelo país, a febre da construção de estádios de futebol e, claro que a Paraíba não poderia ficar de fora.

O Governador Ernani Sátyro que, diga-se de passagem, não era muito afeito ao chamado esporte-bretão, inicialmente resistiu, mas sucumbiu ante as pressões dos torcedores e da imprensa, no movimento que foi liderado pelo então deputado Assis Camelo, à época também presidente do Conselho Regional de Desportos.

Recordo que Dorgival Terceiro Neto, prefeito da capital foi à minha casa e me outorgou, com a cumplicidade do José Carlos Freitas, Secretário da Educação e Cultura do Estado, a tarefa de criar um órgão específico que cuidasse da construção e administração de dois estádios de futebol - um para João Pessoa e outro para Campina Grande. Afinal, Ernani havia decidido que se a Paraíba precisava de estádio moderno, não ia ter somente um. As duas cidade seriam contempladas com estádios à altura delas.

Isso foi em outubro de 1973 e a operação parecia impossível porque a condição que o velho Ernani impunha era de que os dois estádios deveriam ficar prontos antes do dia 15 de março de 1975 - data em que passaria o governo para o seu sucessor.

Foram, então, 15 meses de intenso trabalho: primeiro para criar e fazer funcionar a SUDEPAR - Superintendência dos Estádios da Paraíba, órgão que ligado à Secretaria de Educação, seria responsável pelo recebimento e boa aplicação das verbas. E depois ( o mais difícil), conseguir bons projetos e licitar as obras para a escolha de empresas idôneas que pudessem realizar o que para muitos, parecia inviável.

Para resumir, agora que se vão 35 anos, foi um trabalho hercúleo de que alguns milhares de pessoas participaram entre engenheiros, técnicos, artífices e operários. E o problema era tão mais difícil porque a encomenda tinha uma característica toda especial: o Doutor Ernani - como bom político - queria que os estádios fossem praticamente iguais, no máximo com pequena diferença. A solução? Pode ser vista nas fachadas principais do Almeidão e do Amigão - os arcos da obra de João Pessoa são voltados pra cima, os de Campina, para baixo. No resto tudo é exatamente igual, pois os projetos foram idênticos apenas com essa sutil diferença que muita gente talvez ainda não tenha observado.

Muitos dos meus cabelos ficaram brancos a partir daquela epopéia - tinha eu então 35 anos. Mas, o resultado está aí para todo mundo ver. Os estádios ficaram prontos no prazo determinado, graças aos esforços de um punhado de excelentes engenheiros e técnicos à frente José Neutel Correia Lima, em João Pessoa e Hércules Gomes Pimentel, em Campina Grande - ambos, infelizmente, já falecidos e às centenas de operários anônimos que, na verdade, foram os principais artífices das obras executadas.

Essas duas belas praças desportivas já têm 35 anos de construídas e fazem parte, de forma indelével, da minha vida.

Carlos Pereira
Jornalista, escritor, engenheiro e
professor universitário

Publicada no jornal A União.
Edição 18/12/2010

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