sexta-feira, 12 de abril de 2013

Onélia Queiroga - Os Pais



um conto - uma crônica

O tempo passa, mas ninguém esquece as duas pessoas mais importantes de sua existência: o pai e a mãe. É que foram eles o esteio dos dias primeiros de cada fruto gerado e nascido da união dos dois, até o encaminhamento completo de todos, para o futuro.

O brilho dos seus olhos conserva-se de acordo com a felicidade estampada no olhar dos filhos, entranhando-se, porém, as dores destes nos seus corações em multiplicado sofrimento.Nada mais dilacerante para os pais do que acompanhar os descaminhos da prole.

Os pais amam a sua descendência. Muitas vezes podem parecer grosseiros, mas, a enfática repreensão é feita sempre sob a forma de tratamento de choque, para alertá-loa da beira do precipício que se avizinha. Daí porque invocam ao Senhor, assim:

-"Meu Deus! Fazei deste menino meu um bom e honrado cidadão! Um filho glorioso, por ser humilde, devoto e generoso!"

O objetivo dos pais é educar os seus garotos. Educar é igualmente amoldar. É lançar nestes a boa semente; corrigir quando preciso o for; consolar, quando sentir no semblante deles amargura estampada. Educar é ouvir atento, para compreendê-los. É perscrutar o visível e o invisível, para penetrar no cérebro e no coração dos seus infantes.

Os meus pais deixaram aos seus filhos exemplos de sabedoria e de luta pela vida, com honradez. A maior lição, no entanto, foi a de um eterno amor. Amaram-se, intensamente, durante os quase setenta anos de união matrimonial.

Os dois andavam sempre de mãos dadas, mormente, quando iam ao ofício religioso ou nas horas em que passeavam pelas praças de pombal, desde a mocidade até à longevidade. À noite, na calçada, ficavam, lado a lado, cada um sentado na sua cadeira de balanço.

Esse costume salutar, depois, passou a ser cumprido no terraço-garagem, quase ao ar livre. É que a rua fora destronada pela fúria da violência e pelo império da televisão. A primeira acabou com o sossego e a paz das cidades interioranas; a segunda fez dos cidadãos, reclusos no interior do lar.

Para os meus pais, o estímulo era o instrumento; o exemplo era a ação. Deles recebi ambos. Daí porque, quanta carga emocional, estes fatos tão distantes, tão singelos, tão inesquecíveis produzem em mim, sob a forma de saudade e de lembrança!

Onélia Queiroga

Escritora e Professora de Ciências Jurídicas da Faculdade de Direito da UFPB



Publicada no jornal Correio da Paraíba

Coluna: Aos Domingos

Caderno: Cultura/Lazer

Edição 03/02/2013.


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