terça-feira, 26 de novembro de 2013

Germano Romero - O Culto À Vingança

um conto-uma crônica
Toda vez em que se aproxima um sábado de "Aleluia", expressão que significa alegria e uma forte razão para que se exultem a paz e a graça pela vida, tento voltar ao assunto por observar que é justamente nesta data que se pratica a detestável "malhação do judas" - uma imensa deturpação dos códigos de conduta ensinados por Jesus.

Sendo o perdão, a solidariedade, a compreensão e o amor as principais virtudes que baseiam a sua mensagem, imaginem o seu desgosto perante as manifestações de ódio e vingança que perduram há mais de 2 mil anos, exatamente no comportamento dos que se dizem "cristãos"...

Decerto, hoje seria Judas quem diria "Pai, perdoa porque eles não sabem o que fazem", diante do bárbaro espetáculo, regozijado inclusive entre crianças.

Tal exposição pública e coletiva da ira ficou ainda mais ridícula após as descobertas encontradas nas escavações do subsolo da Galiléia, atestando que Judas Iscariotes era o apóstolo "preferido, de extrema confiança do Mestre", e que Judas não traiu Jesus! Simplesmente cumpriu um trato feito com seu mestre, que lhe pediu para entregá-lo aos soldados romanos. Tudo combinado, inclusive hora, local e a forma: o famigerado beijo!. Que suave maneira de trair...

Na verdade, grande parte dos homens que naquela época se aproximaram do Cristo, ao reconhecer sua capacidade de liderar, tinha interesses egoístas. Imaginando que Cristo era um revolucionário, que aspirava tomar o poder, a ele se juntaram por mera ambição. Até o Rei Herodes, temendo ver seu trono arrebatado, ordenou uma das mais execráveis operações de tirania da história, ordenando a matança de todas as crianças com menos de 2 anos.

Depois que Jesus foi perseguido e condenado, muitos se desligaram da "fé", ou do "interesse" que os uniam a Jesus. E Judas já afastado do Nazareno, foi inquirido e subornado pelos soldados sobre o seu paradeiro. Desencantado, aceitou o dinheiro oferecido pela "venda" da informação, cravando em si próprio o maior título de "traidor" já tachado em alguém.

Entretanto, há mais de dois milênios ninguém ainda compreendeu, nem perdoou a fraqueza daquele homem. E neste eterno e grotesco culto à vingança - a tal malhação - , continuam a demonstrar como estão longe de aprender a verdadeira essência dos ensinamentos cristãos.

Germano Romero é arquiteto e bacharel em Música.

Publicada no jornal Correio da Paraíba
Edição de 29/03/2013.

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