terça-feira, 26 de novembro de 2013

Paulo Coelho - Três Histórias Da Tradição Zen

um conto-uma crônica

O gosto e a língua

Um mestre zen descansava com seu discípulo. A certa altura, tirou um melão do seu alforje, dividiu-o em dois, e ambos começaram a comê-lo.

No meio da refeição, o discípulo comentou:

- Meu sábio, sei que tudo que o senhor faz tem um sentido. Dividir este melão comigo talvez seja um sinal de que tem algo a me ensinar.

O mestre continuou a comer em silêncio.

-Pelo seu silêncio, entendo a pergunta oculta - insistiu o discípulo.

- E deve ser a seguinte: o gosto que estou experimentando ao comer esta deliciosa fruta está em que lugar: no melão ou na minha língua? 

O mestre não disse nada. O discípulo, entusiasmado, prosseguiu:

- E como tudo na vida tem um sentido, eu penso que estou perto da resposta a esta pergunta: o gosto é um ato de amor e interdependência entre os dois, porque sem o melão não haveria um objeto de prazer, e sem a língua...

- Basta! - disse o mestre. - Os mais tolos são aqueles que se julgam os mais inteligentes, e buscam uma interpretação para tudo! O melão é gostoso, isto é suficiente, e deixe-me comê-lo em paz!

Ryokan e o ladrão

Ryokan era incapaz de fazer acusações. Embora fosse um grande mestre do zen budismo, jamais se julgou melhor que os outros.

Um de seus discípulos pediu que conversasse com o irmão salteador, que aterrorizava a cidade. Ryokan foi até a casa do bandido, e passou a noite inteira com ele.

Não trocaram uma só palavra.

De manhã, o salteador ajudou Ryokan a atar suas sandálias. Ao fazer isto, as lágrimas do homem começaram a lavar seus pés.

- Nunca tive a companhia de um sábio - disse, entre soluços. - Só de outros salteadores como eu, ou de policiais interessados em me condenar. Se Ryokan passou uma noite comigo, é porque ainda valho alguma coisa.

E a partir deste dia, este homem nunca mais cometeu um crime. 

El Grego e a luz

 Numa agradável tarde de primavera, um amigo foi visitar o pintor El Grego. Para sua surpresa, encontrou-o em seu atelier, com todas as cortinas fechadas.

Grego trabalhava num quadro que tinha como tema central a Virgem Maria, usando apenas uma vela para iluminar o ambiente. Surpreso, o amigo comentou:

- Sempre ouvi dizer que os pintores gostam do sol para escolher direito as cores que vão usar. Por que você não abre as cortinas?

- Agora não - respondeu El Grego. - Perturbaria o fogo brilhante da inspiração que está incendiando minha alma, e enchendo de luz tudo a minha volta. 

Paulo Coelho
Cronista e letrista

Publicada no jornal Correio da Paraíba
Edição de 30/06/2013
Milenium
F3

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