segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

Onaldo Queiroga - Matuto, Vida E Sabedoria





 um conto - uma crônica

Para muitos desinformados, o matuto não passa de um ser bocó, abestado, analfabeto e integrante de um submundo.

Ledo engano. O matuto tem vocábulos, expressões próprias e sabedoria que os “intelectuais” das metrópoles desconhecem. Aliás, por possuir essas expressões típicas de seu mundo, o matuto, às vezes, é discriminado, recebendo, inclusive, um forte preconceito. Sua fala, seus trejeitos e vestimentas servem de personagens do humor brasileiro. Os humoristas, em cena, mostram a sabedoria do matuto. Lamentavelmente, por trás de alguns risos está uma ponta de preconceito.

Quando falo de matuto, refiro-me mesmo ao homem nordestino, embrenhado no mato, vivente do Cariri, do Brejo, do Seridó e do Sertão. Esse roceiro, beradeiro, caboclo valente, não vive “à migué”, nem muito menos é "abirobado", como pensa a turma das metrópoles. Pelo contrário, é cabra sabido, dialoga com a natureza, que lhe ensina quando o ano é de seca ou de inverno. Muitos não são de arenga, mas não pise nos pés deles, pois "dá um boi para não entrar numa briga e uma boiada para não sair".

O matuto é essência da cultura nordestina. Seu modo de viver, sua poesia, seu artesanato, sua cantoria, simplicidade, pureza e fé constituíram e ainda constituem inspiração para muitos escritores e artistas brasileiros. O mestre Jessier Quirino, por exemplo, em sua obra, mostra-nos, com humor e lirismo, a sabedoria da vida do matuto. Ninguém menospreze esse ser. Quem assim o fizer, está fadado a se surpreender com a vivacidade e autoridade do seu agir e de suas respostas.

Com a expansão tecnológica e a incursão do tráfico de drogas, presentes no mundo interiorano, começa a pairar o temor pelo desaparecimento das características intrínsecas dessa figura emblemática da cultura de um povo chamado Nordeste.

Podem falar que matuto é sinônimo de sofrimento, o que, de fato, procede. Matuto sofre, sim, mas, apesar disso, é alegria, fogão a lenha, uma varanda, uma rede a balançar em noite de lua e de céu estrelado.

Recebido por e-mail do autor Onaldo Queiroga - Escritor e Juiz de Direito


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