4 MINUTOS
O truque do chocolate para nos escravizar e a mentira dos 70%
Por Mário Sérgio Lorenzetto | 25/02/2023 09:35
Pegue um pedaço de chocolate escuro e enfie na boca.
Por alguns momentos, você sentirá seus cantos duros contra teu palato e tua língua, mas sentirá pouco seu sabor.
É quase impossível resistir à vontade de dar uma mordida, mas tente não morder, assim conseguirá experimentar o que acontece: a massa vai se tornando, de repente, mole quando absorve o calor de tua língua.
Quando essa massa for se tornando líquida, você notará que tua língua ficará mais fria, e, depois, uma combinação de sabores doces e amargos invadem tua boca.
Eles são seguidos por sensações de frutas ou de nozes. Por um momento feliz, você será escravo do material mais delicioso que a química já criou na Terra.
O grande truque do chocolate.
O chocolate foi feito para se transformar em líquido assim que atingir tua boca.
Esse truque é a culminação de centenas de anos de esforços químico-culinários, voltados inicialmente para criar uma bebida popular que visava competir com o chá e o café.
Esse esforço foi um fracasso.
Só resolveram bem a questão quando criaram as barras de chocolate.
Em verdade, eles criaram uma bebida sólida.
A indústria do chocolate nunca se arrependeu desse feito dificílimo.
O que tornou isso possível foi o entendimento e o controle dos cristais - especificamente dos cristais de manteiga de cacau.
A maravilhosa manteiga de cacau.
A manteiga de cacau é uma das melhores gorduras no reino vegetal, lutando bravamente com a manteiga de laticínio e o azeite de oliva pela "pole position". E é tão ou mais cara que suas adversárias.
Em sua forma pura, parece uma manteiga sem sal fina, e é a base não apenas para o chocolate mas também para cremes e loções faciais de luxo.
Observe bem: luxo.
Dentre outras muitas propriedades, a manteiga de cacau tem uma vida útil de anos, ao contrário da manteiga de laticínio que tem vida útil de poucas semanas.
O "estalo" do chocolate.
Há quatro tipos de chocolates, variando de acordo com seus cristais.
Os de tipo I e II, como são chamados, são mecanicamente macios e bastante instáveis.
Podem se transformar nos tipos III e IV, mais densos. Esses tipos III e IV são macios e quebradiços, e sempre causam "estalo" quando quebrados.
Essa propriedade do estalo é fundamental porque acrescenta surpresa e drama à nossa experiência com o chocolate.
Também permite que criem coberturas externas duras dentro das quais podem encapsular partes macias.
O chocolate em barra é uma grande experiência química vitoriosa.
Não se engane com os 70%.
O chocolate negro normalmente contém 50% de gordura de cacau e 20% de pó da fruta de cacau.
É o chamado 70% na embalagem.
Quase todo o resto é açúcar.
Trinta por cento de açúcar é muita coisa.
É o equivalente a colocar uma colher de sopa cheia de açúcar na tua boca.
Mesmo assim, o chocolate escuro não é totalmente doce, às vezes não é nada doce.
Essa é outra jogada química para dar a impressão de que "aquela barra é totalmente feita de chocolate".
Eles colocam cafeína e teobromina que são extremamente amargas e adstringes, ativando os receptores de gostos amargos e ácidos, para, em seguida, chegar ao gosto de açúcar.
Também podem colocar sal, mas essa é outra história química.
Campogrande Nws

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